30 jun 2013 – Raízes históricas da crise social no Brasil – O papel do FMI

por Michel Chossudovsky

Milhões de pessoas por todo o Brasil aderiram a um dos maiores movimentos de protesto da história do país. Ironicamente, o levantamento social dirige-se contra as políticas econômicas de uma auto-proclamada alternativa “socialista” ao neoliberalismo conduzido pelo governo do Partido dos Trabalhadores (PT) da presidente Dilma Rousseff. 

O “remédio económico forte” do FMI, incluindo medidas de austeridade e a privatização de programas sociais, foi implementado sob a bandeira “progressista” e “populista” do PT, em acordo com elites econômicas poderosas do Brasil e em estreita ligação com o Banco Mundial, o FMI e a Wall Street. 

Apesar de o governo PT apresentar-se como “uma alternativa” ao neoliberalismo, comprometido com o alívio da pobreza e a redistribuição de riqueza, sua política monetária e fiscal está nas mãos dos seus credores da Wall Street. 


Ironicamente, o governo PT de Dilma Rousseff e do seu antecessor Luís Ignacio da Silva foi louvado pelo FMI devido a: 

“uma notável transformação social no Brasil com base na estabilidade macroeconômica e na ascensão de padrões de vida”. 

As realidades sociais subjacentes são outras. As “estatísticas” do Banco Mundial sobre pobreza são grosseiramente manipuladas. Só 11% da população, segundo o Banco Mundial , estão abaixo da linha de pobreza. E 2,2% da população estão a viver em pobreza extrema. 

O padrão de vida no Brasil entrou em colapso desde que o Partido dos Trabalhadores chegou ao poder em 2003. Milhões de pessoas foram marginalizadas e empobrecidas, incluindo uma parte significativa da classe média urbana. 

Apesar de o PT apresentar uma imagem “progressista” orientada para o povo, oficialmente oposta à “globalização corporativa”, a agenda macroeconômica foi reforçada. O governo PT sistematicamente manipulou as suas bases, tendo em vista impor o que o “Consenso de Washington” descreve como “uma estrutura política forte”. 

Os investimentos estruturais de muitos milhares de milhões de dólares orientados pelo lucro para a Copa Mundial em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016, forjados pela corrupção corporativa, contribuíram para um aumento significativo da dívida externa do Brasil, a qual por sua vez reforçou o controle da política económica pelos seus credores da Wall Street. 

O movimento de protesto é em grande parte composto por pessoas que votaram pelo Partido dos Trabalhadores (PT). 

O apoio das bases do governo PT foi rompido. A base do Partido dos Trabalhadores voltou-se contra o governo. 

História: a traição do Partido dos Trabalhadores 

O Partido dos Trabalhadores está no poder há mais de dez anos. 

A crise social em curso no Brasil é a consequência da agenda macroeconômica lançada no início do acesso de Luís Ignácio da Silva à presidência, em 2003. 

A eleição de Lula em 2003 corporificou a esperança de uma nação inteira. Representou uma votação esmagadora contra a globalização e o modelo neoliberal, o qual por toda a América Latina resultou na pobreza em massa e no desemprego. 

A eleição de Lula no fim de 2002 por entendida como um importante ponto de ruptura, um meio de rejeitar a estrutura política do seu antecessor Fernando Henrique Cardoso. 

Enquanto era abraçado em coro pelos movimentos progressistas de todo o mundo, a administração Lula também estava a ser aplaudida pelo principal protagonista do modelo neoliberal. Na palavras do Diretor Administrativo do FMI, Horst Kohler:

“Sou entusiasta [da administração Lula]; mas é melhor dizer que estou profundamente impressionado pelo presidente Lula … o FMI ouve o presidente Lula e a equipe econômica  esta é a nossa filosofia”.

Não é de admirar que o FMI seja “entusiasta”. As principais instituições da administração econômica e financeira foram oferecidas numa bandeja de prata à Wall Street e a Washington. 

O FMI e o Banco Mundial têm louvado o governo do Partido dos Trabalhadores pelo seu compromisso com “fortes fundamentos macroeconômicos . Tanto quanto o FMI está preocupado, o Brasil “está na trilha” em conformidade com as balizas do FMI. O Banco Mundial elogiou tanto os governos Lula como Dilma: “O Brasil está a buscar um programa social arrojado com responsabilidade fiscal”. 

De acordo com o Professor James Petras:

A maior parte dos responsáveis políticos da Wall Street e de Washington, surpreendidos pela selecção de uma equipe económica ortodoxa liberal, ficou perfeitamente extasiada quando ele começou a promover vigorosamente uma agenda neoliberal radical, incluindo privatização da segurança social, rebaixamento substancial de pensões para empregados de sectores públicos e redução do custo e facilitação das exigências para capitalistas despedirem trabalhadores. ( Global Research, 2003 )

Segundo Marcos Arruda, do PACS, um centro de investigação não governamental no Rio de Janeiro:

“A equipe econômica de Lula ao prosseguir políticas impostas pelo FMI está estripando pagamentos sociais não só para os aposentados como também para os deficientes e as famílias mais pobres”. O prosseguimento de políticas econômicas ortodoxas também empurrou o desemprego oficial para 12%, ao passo que as taxas de juro internas posicionam-se nos 26,5%, entre as mais altas taxas do mundo. Em São Paulo, a maior cidade do Brasil, o desemprego atingiu os 20%. (Ver Roger Burbach, Global Research, June 2003 )

O Brasil sob o governo PT não endossou apenas o neoliberalismo “com um rosto humano”, ele também apoiou a militarização da América Latina e do Caribe conduzida pelos EUA. 

Lula estabeleceu um relacionamento pessoal com George W. Bush. Se bem que fosse um crítico firme da guerra iraquiana conduzida pelos EUA e um apoiante de Hugo Chavez, ele tacitamente também apoiava interesses estratégicos dos EUA na América Latina. 

No rastro do golpe de Estado no Haiti patrocinado pelos EUA-França-Canadá, em Fevereiro de 2004, contra o governo eleito devidamente de Jean Bertrand Aristide, o presidente Luís Ignácio da Silva endossou a ocupação militar do Haiti e despachou tropas brasileiras para Port au Prince, sob os auspícios da Missão de Estabilização das Nações Unidas (MINUSTAH). 

Não pode resultar qualquer mudança significativa de um debate sobre “uma alternativa ao neoliberalismo”, o qual na superfície parece ser “progressista” mas que tacitamente aceita como legítimo o direito de os “globalizadores” dominarem e pilharem o mundo em desenvolvimento. 

O movimento de protesto social que tem varrido o Brasil é o resultado de 10 anos da repressão econômica de “livre mercado” sob o disfarce de uma “agenda progressista”. 

21/Junho/2013

 

O original encontra-se em www.globalresearch.ca/… 

Esse post foi publicado em A falsa democracia brasileira, Brasil-Líder do Milênio. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para 30 jun 2013 – Raízes históricas da crise social no Brasil – O papel do FMI

  1. Marcus Siviero disse:

    Boa tarde Atama.
    Penso que é desnecessário criticar duramente o atual “desgoverno”, mas considero importante lembrar que os que hoje manifestam, não serão os que estarão sob as acusações de amanhã?
    Não é exatamente isso que vemos hoje?
    O Brasil é palco mundial das verdadeiras piadas políticas, desde o descobrimento vemos o mesmo trecho de uma peça “satânica”, os que reclamam hoje Roubam amanhã, e assim sucessivamente por séculos à fora.
    Abraços, Marcus.

Opte por deixar comentários claros, concisos, compreensíveis e racionais. Evite palavrões, palavras ásperas e críticas/ofensas a outras pessoas. Lembre-se que este blog é muito lido por menores de idade. Por favor, deixe bons exemplos.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s