29 mai 12 – Revisitando a República da meia-boca

Revisitando a república da meia-boca

Boletim Jornauto News 414 – 15 de Maio de 2012

(texto da internet – fonte:  http://www.jornauto.com.br/boletim/index.php )

Por por Luciano Pires

Em 2006 escrevi um artigo que agora revisei para que você, em meio ao nevoeiro, reflita sobre o que mudou:

Em 1956, ano em que nasci, o Brasil vivia um momento ímpar. Tínhamos na presidência da república Juscelino Kubitscheck, que prometia fazer em cinco anos o que qualquer outro faria em cinquenta. O Brasil era o país do futuro, todos os sonhos eram possíveis. O mundo aplaudia a Bossa Nova no Carnegie Hall enquanto Brasília era inaugurada. Éramos campeões mundiais de futebol e de basquete. A tenista Maria Esther Bueno vencia em Wimbledon. Eder Jofre consagrava-se campeão mundial de boxe. E uma porção de gente fazia acontecer, transformando sonhos impossíveis na Embraer, na Embrapa, na Petrobrás e em tantas empresas de sucesso. Era fascinante ver a coragem, o senso de oportunidade, a visão dos empreendedores brasileiros. Mas tem algo que me incomoda. Cadê aqueles malucos visionários?

Em 1956, enquanto fabricávamos nossos primeiros automóveis no Brasil, os chineses andavam de carro de boi. Os indianos, de elefante. Os coreanos a pé, em estradas destruídas pela guerra. Esses países eram conhecidos pela miséria industrial, política e econômica, gigantescos fracassos, que se apagavam diante da exuberância de um Brasil emergente. Qualquer um apostaria em nós!

Pois agora os chineses trazem fábricas de automóveis para o Brasil e começa a importação de carros indianos. Da Coréia, então, nem se fala! Importamos tecnologia de quem andava de carro de boi quando já fabricávamos automóveis, levamos meio século para inverter as apostas. A conclusão é que os loucos chineses, indianos e coreanos são mais viáveis que os nossos. A expectativa deles é conquistar o mundo, como queriam os brasileiros de cinquenta anos atrás e que hoje parece que se contentam em ter um dinheirinho pra comprar um carrinho, de preferência chinês, que é baratinho. É a expectativa de quem vive na média, acostumado com o que é meio-bom, meio-suficiente, meio-competente, meio-confortável, meio-saudável. A expectativa de quem é meia-boca. De quem não percebe que meio-bom é meio-ruim, meio-honesto é meio-desonesto, meio-competente é meio-incompetente. Com que metade você fica?

E assim, na república da meia-boca, os aeroportos continuam uma zona; um bicheiro faz estrago na política; as chuvas inundam as cidades; as estradas são um buraco só; os juros continuam os mais altos do mundo; a educação é uma piada; as obras da copa já estão estimadas em três vezes mais que o orçamento original. E indignados fazemos uma cara de espanto, esbugalhamos os olhos e exclamamos diante da televisão:

– Que absurdo!

E então, certos de que fizemos “o que dava”, voltamos à nossa vidinha das expectativas médias, resignados como bovinos.

Quer saber? Pare de se contentar com o meio, queira o Brasil inteiro.

Mas é bom andar logo. Os chineses também querem.

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3 respostas para 29 mai 12 – Revisitando a República da meia-boca

  1. Clara disse:

    Olá Atama,

    Adorei seu comentário.
    Conta sua vivência amadurecida e crítica desta época plena de contradições, onde a maioria dos impulsos para um Brasil e um mundo melhores foram realmente postos abaixo. A democracia sumiu e ainda estamos pagando muito caro por tudo o que houve. Outro dia, ouvi uma entrevista do Sergio Ricardo (aquele do Violão no Festival da Canção) e entendi muita coisa do que ocorreu na alma de nosso povo, durante e depois dessa época. Também procurei saber do Geraldo Vandré e vi uma entrevista onde ele diz que quando voltou de seu último exílio encontrou um país massificado.e que continuar qualquer coisa seria como clamar no deserto. Percebi nele o mais profundo desencanto.
    Quem sabe agora, com a Comissão da Verdade possamos resgatar tanta gente boa que tinha nesse movimento tão corajoso e cheio de ideais, além de aliviar a dor de muita gente, dos que sofreram e de todos que de alguma forma tiveram suas vidas dilaceradas pela violência da ditadura.O ônus foi enorme para o Brasil. Nossa juventude precisa resgatar certo valores e sem dúvida renová-los e refundá-los para quem sabe, recriar novos impulsos e movimentos de transformação, lógico que com a cara do nosso Brasil de hoje que sofre demais com as injustiças, com a ¨Agenda Econômica¨ e outros Mal Feitos (segundo a Presidenta Dilma), etc…
    Precisamos de bons impulsos, vontade e competência. Coisas que possam vir a ser grandes e de acordo com o tamanho do nosso Brasil e de nossas infindáveis necessidades.
    Bem, é isso.
    Um grande abraço.

    Clara ( para ter sempre clareza!, rs)

  2. Atama Moriya disse:

    Clara, agradeço muito a sua perseverança em acompanhar este blog, então é você??? rsrsrs…
    Você tem razão em perguntar o que aconteceu com as nossas lideranças, os homens bons que poderiam ter levado a frente este Brasil e que sumiram.
    Eu vivi, embora adolescente, o final da década de 60, pós revolução e sempre ficava a observar o que acontecia, pelo menos ao meu redor. Empresários que apoiaram a revolução de 64, que não foi uma revolução e sim um golpe militar, prosperavam, alguns eram conhecidos da minha família e amigos. Muitos que não apoiaram (financeiramente) faliram… Na década de 70, empresários como Roberto marinho prosperaram e muito, amigos do Rei… aquelas coisas..
    No colégio, algo me incomodava, muitos soldados do lado de fora e do lado de dentro. Alguns estudantes que faziam parte da UNE com apenas 15 ou 16 anos desapareceram também. Um dia estavam no movimento da UNE, meio disfarçados quando o exército estava por perto, no outro já tinham desaparecido. O que houve?
    O golpe militar de 64 acabou com a juventude que sonhava com um país melhor e não tem essa de que eram comunistas. Eram apenas jovens que não aceitavam a falta de democracia no Brasil, o direito de escolha.
    Os militares no poder erraram muito, muito, demais… e atrasaram este país em trinta anos pelo menos. Democracia é fundamental para a evolução de uma sociedade, sem escolhas democráticas, sejam certas ou erradas, você tolhe o indivíduo na evolução social, política, econômica, etc..
    Slogans cretinos como “Brasil, ame-o ou deixe-o” ou ainda a lei de gérson, “o mundo é dos espertos” destruiram o pensamento do povo. Todo mundo tinha medo dos militares e não respeito.
    O falecido Roberto Campos construiu uma economia com bases totalmente furadas e que até hoje atrasam o nosso país porque a super elite não deseja que sejam mudadas, graças a seus representantes no Congresso até os dias atuais.
    Impostos lineares, impostos exagerados dos estados sobre o consumo, e uma infinidade de impostos sobre a produção, todos que inexistem em qualquer economia desenvolvida, formaram a base tributária, contudo a renda e o lucro continuaram quase intocados e lineares também desde aquela época… Isto é uma causa grave (uma delas) da nossa estagnação enquanto sociedade.
    O surgimento de uma super-elite, em pequeno numero, mas poderosa até os dias atuais no tráfico do poder em Brasília, é algo que não havia antes dos militares, não desta forma distorcida, são as cachoeiras da vida que caem diariamente sobre o povo até hoje.Caras, os pobres, as classes C, D, e E, não existiam desta forma atual, mas foram surgindo a partir de 1970, antes era principalmente A, B e C. As classes D e E que foram surgindo foram sendo empurradas para periferias das capitais, morros, etc.. e sem nenhuma estrutura, como ainda é, sem escolas, sem saneamento, sem saúde, sem emprego, etc.. e os BNHs foram uma forma de se livrar dos pobres, deixando-os amontoados, longe de tudo e abandonados pela sociedade. Se hoje temos muito crimes e criminosos nas periferias, tudo tem uma explicação, exata.
    Eu vivi este momento em que o Brasil perdeu sua identidade e os indivíduos se conformaram com a miserabilidade generalizada.
    Enfim, entendo que as duras penas e muitas cachoeiras estamos recuperando a nossa identidade e nossa vontade de ser melhor, mais útil a sociedade.
    Os picaretas estão caindo, muito lentamente, lentamente ainda, mas estão caindo, os velhos políticos estão morrendo de velhos e caretas. Tudo vai levar um tempo ainda, mas vai acontecer.
    Abs.

  3. Monica lacerda disse:

    Olá a todos,

    Atama, dia sim, dia não, visito seu site e agradeço as matérias publicadas.
    No caso do exposto acima não poderia deixar de comentar.
    Bem, somos nós mesmos os responsáveis, Cada um de nós.
    Porém, tenho umas perguntas:
    Onde estão as pessoas que fizeram este movimento do Brasil grande? Supostamente a maoria está por aí. Muitos morreram como JK. O que aconteceu? De repente, quem conseguiu azedar tudo? Quais as forças que atuaram para o retrocesso?
    Acho que há uma lacuna de informações, lacuma da história nem tão recente assim, fruto provavelmente ainda da ditadura.
    A quem interessa sermos nós essa meia boca?
    Políticos de meia tigela? Banqueiros? Mídia da comunicação? Governos? Políticas mal conduzidas? Manipulação de quem?
    Falta inteligêcia, clareza e coragem ?
    Um povo sem saúde, sem educação e mal pago vai pra onde?E ainda sem uma aparente direção?
    Bem, ficam as perguntas.
    Obrigada.

    Clara

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