01 set 11 – Euro, a máquina de engendrar estagnação

por Charles Gave

Estou estupefato pelo grau de incompetência das nossas elites econômicas ou financeiras. Como no poema de du Bellay sobre os cardeais em Roma, se os vê deambular “com um passo solene e um semblante carregado” a repetirem como Diafórios”o fígado, eu vos digo, o fígado”. E de nos apresentarem o problema dos países europeus como provenientes de um excesso de dívidas que conduzem a déficits orçamentais insustentáveis e que devem, naturalmente, ser corrigidos por altas de impostos acompanhadas de uma baixa do nível de vida, ai de nós, inelutável… na qual todo o mundo sofrerá, salvo eles bem entendido.

Se me permitem, eis uma magnífica asneirada de qualidade conceptual equivalente ao célebre “para reduzir o desemprego diminuamos o tempo de trabalho”.

A realidade é muito diferente. Como não cesso de explicar nestas crônicas, o Euro é uma máquina de engendrar a estagnação nos países menos competitivos, ou seja, todos aqueles que têm uma produtividade do trabalho inferior à da Alemanha.

Se a produtividade sobe 3% ao ano na Alemanha e o% na Itália, ao fim de um certo número de anos todos os produtores italianos estarão em falência se a taxa de câmbio entre os dois países permanece fixa.

A prova é que a taxa de cobertura das exportações pelas importações (exportações/importações) que era superior a 1 no ano 2000 para o comércio exterior italiano (em excedente comercial portanto) caiu brutalmente para 0,85 em 10 anos, verificando-se a mesma evolução em França. Umadeterioração tão ampla como esta, quando houve um crescimento do PNB italiano muito fraco no mesmo período (0,5% ao ano em volume) é um sinal CERTO de que a economia italiana já não é competitiva. Outrora, a Itália teria desvalorizado um bocado para repor os pêndulos na hora, hoje isto é impossível…

Neste ponto do raciocínio o leitor deve colocar-se a questão: “mas o que é que vai acontecer?” A resposta requer um pouco de reflexão econômica e felizmente está ao alcance de uma inteligência média – mas lamentavelmente é incompreensível para as inteligências superiores que nos governam.

Como o crescimento da França, da Itália, etc. baixa estruturalmente pelas razões mencionadas acima, as receitas fiscais são mais fracas e as despesas mais fortes do que o previsto. Deste facto decorre que os déficits orçamentais aumentam ao mesmo tempo que os déficits externos. Muito logicamente, a dívida explode. Chega sempre um momento, e nós estamos nele (para mais pormenores ver L’Etat est mort vive l’état , Bourin éditeur, do autor) em que os mercados obrigacionistas começam a integrar a probabilidade de um não reembolso da dívida estatal.

Então, nesse momento, as taxas de juro se põem a subir acima da taxa de crescimento da economia e o país entra no que Keynes chamava uma “armadilha da dívida” que se caracteriza por uma realidade muito simples: se você toma emprestado a um custo de 5% e investe com uma rentabilidade de 2% e isso dura bastante tempo, a questão não é de saber se vai entrar em falência mas sim QUANDO vai passar no alçapão. É aí que estão Portugal, a Itália, a Grécia, a Espanha e em breve a França.

Portanto a crise atual não é absolutamente uma “crise da dívida” mas uma crise decorrente da sub competitividade de uma parte importante da Europa em relação ao resto do mundo em geral e do resto da Europa em particular.

A crise atual é portanto uma consequência INELUTÁVEL do Euro.

Não podia ser de outra forma.

As soluções propostas são sempre executada por contabilistas que não compreendendo nada desta dinâmica visam reduzir o déficit orçamental aumentando os impostos (sobre os mais ricos, não é preciso dizer). Como uma alta do imposto implica uma baixa da poupança e como no longo prazo a poupança é igual ao investimento, o investimento – que é a única maneira de tornar a economia novamente competitiva – baixa igualmente e o país torna-se ainda menos competitivo.

O fim lógico do processo é simples: de fato, o Euro substitui a possibilidade de uma desvalorização da Lira pela CERTEZA de uma falência do Estado italiano.

Não estou seguro de que isto seja um grande progresso. Para dizer verdade, estou seguro do contrário.

A alternativa, naturalmente, é o credor tomar o controle do devedor, ou seja, a Alemanha enviar seus funcionários para dar ordens a Bercy por exemplo. É a isto que se convencionou chamar pudicamente “a solução federal”. Proveniente de uma velha família alsaciana que deixou a Alsácia em 1870 para permanecer francesa, isso tão pouco me entusiasma.

Continuar a evitar tudo o que de perto ou de longe se refere ao Estado, ou à necessidade do Estado, ou faz uma grande parte do seu volume de negócios com este monstro obeso, foi e permanece minha estratégia. Não há razão para alterá-la.

28/Julho/2011

 

[1] Thomas Diafoirus: personagem da peça “O doente imaginário”, de Molière. É um médico retratado como pedante que gosta de usar uma terminologia científica rebuscada mas não se preocupa muito com a saúde real dos seus pacientes.
[2] Bercy: local do Ministério das Finanças francês.

[*] Economista e financeiro francês, anti-estatista, defensor do liberalismo.

O original encontra-se em http://lafaillitedeletat.com/2011/07/28/les-medecins-de-moliere/

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