10/02 – Revolução no Egito: Prosperidade financeira para investidores e especuladores da Wall Street – Há uma agenda oculta por trás da decisão de Mubarak de não renunciar?

por Michel Chossudovsky

A decisão de Mubarak de não renunciar foi tomada em estreita colaboração com Washington. A administração americana, incluindo a sua inteligência, identificou cuidadosamente os cenários possíveis. Se Washington houvesse instruído Mubarak a demitir-se, ele teria obedecido de imediato.

A sua decisão de não renunciar serve inequivocamente aos interesses dos EUA. Ela cria uma situação de caos social e inércia política, a qual por sua vez gera um vácuo decisório ao nível do governo.

A crise social continuada também resultou numa saída maciça de capital (dinheiro). Mais concretamente, o que isto significa é que as reservas oficiais de divisas estrangeiras estão a ser confiscadas pelas principais instituições financeiras.

A pilhagem da riqueza monetária do país é uma parte integral da agenda macro-económica. O governo recém-formado por instruções de Washington não tomou passos concretos para restringir o fluxo maciço de saída de dinheiro. Uma crise social prolongada significa que grandes quantias de dinheiro serão apropriadas.

Segundo fontes oficiais, o Banco Central do Egito tinha (antes do movimento de protesto) 36 bilhões de dólares em reservas de divisas estrangeiras bem como US$21 bilhões adicionais em depósitos juntos a instituições bancárias internacionais as quais diz-se constituírem as chamadas “reservas não oficiais”. (Reuters, 30/Janeiro/2011).

A dívida externa do Egito, que aumentou em mais de 50 por cento nos últimos cinco anos, é da ordem dos 34,1 mil milhões (2009). Isto significa que estas reservas do Banco Central são de facto baseadas em dinheiro emprestado.

No princípio de 2010 houve um grande influxo de depósitos a curto prazo (hot money) em instrumentos de dívida do governo egípcio.

Divisas estrangeiras fluem para dentro do país e são trocadas por libras egípcias (E£), as quais são então utilizadas por investidores institucionais e especuladores para comprarem títulos do governo e títulos do tesouro de alto rendimento (denominados em libras egípcias) com taxas de juro a curto prazo da ordem dos 10 por cento.

A taxa de juro a longo prazo dos títulos do governo disparou para 7,2 por cento no início do movimento de protesto. (Egypt Banks to Open Amid Concern Deposit-Run May Weaken Pound, Lift Yields – Bloomberg, January 2, 2011)

No início da crise, os investidores internacionais possuíam cerca de US$25 bilhões em títulos egípcio, quase um quinto do total do mercado de títulos do Tesouro e cerca de 40 por cento do mercado interno de títulos. Os investidores estrangeiros também representavam cerca de 17 por cento do movimento do mercado de ações e possuíam cerca de US$5-US$6 bilhões em ações egípcias. (Ibid)

Sob o seu acordo com o FMI, não é permitido ao Egipto implementar controles de divisas estrangeiras. Estes depósitos de dinheiro a curto prazo estão agora a deixar o país, pois antecipam uma desvalorização da libra egípcia. Nos dias que antecederam o discurso de Mubarak, a fuga de capital estava a ocorrer a várias centenas de milhões de dólares por dia.

Numa ironia amarga, por um lado o Egito deposita US$21 bilhões junto a bancos comerciais como “reservas não oficiais”, enquanto estes bancos comerciais adquirem US$25 bilhões de dívida em libras egípcias, com um rendimento da ordem dos 10 por cento. O que isto sugere é que o Egito está a financiar o seu próprio endividamento.

O movimento de protesto começou num feriado bancário. Enquanto o encerramento do mercado de ações e do sistema bancário interno pôs uma tampa temporária sobre a saída de capital, grandes quantias de capitais em fuga instrumentados pelas principais instituições financeiras já haviam ocorrido nos dias que se seguiram ao movimento de protesto.

O sistema bancário do Egito reabriu a 5 de Fevereiro, o que levou a um processo renovado de fuga de capital resultando no esgotamento das reservas do banco central e num aumento correspondente da dívida externa do Egito.

Uma desvalorização de pelo menos 20 por cento está a ser considerada. Segundo a divisão de divisas de mercados emergentes, “a libra poderia ‘facilmente’ cair outra vez em 50 por cento ou mais para E£ por US dólar”. FT.com / Currencies – Banks weigh risk of capital flight, February 1, 2010)

Uma desvalorização de mais de dez por cento arruinaria mais a situação social. Os preços internos dos alimentos estão dolarizados. Se houver uma desvalorização da libra egípcia, isto inevitavelmente dispararia um aumento renovado dos preços de bens alimentares essenciais, levando a um novo processo de empobrecimento.

Um cenário de desvalorização da divisa, dívida externa ascendente junto com um pacote renovado do FMI patrocinando medidas de austeridade levaria inevitavelmente a um agravamento da crise social e a uma nova onda de protestos.

O recém-nomeado ministro das Finanças, Samir Radwan, está comprometido firmemente com o Consenso de Washington, o qual tem servido para empobrecer o povo egípcio. Numa declaração contraditória em 3 de Fevereiro, Radwan confirmou que “o governo não reduzirá subsídios mesmo que os preços globais de alimentos e commodities ascendam. A despesa pública será utilizada como uma ferramenta para “alcançar justiça social”, disse ele numa conferência no Cairo. (Bloomberg, 5/Fevereiro/2011)

Radwan está a obedecer às linhas mestras do FMI-Banco Mundial: não serão aplicadas restrições à fuga de capital. O Banco Central assegurará a conversão de depósitos a curto prazo em divisas fortes por parte das principais instituições financeiras. Os cofres do banco central serão saqueados.

Com a fuga de capitais, a dívida interna é transformada em dívida externa, colocando o país sob o domínio de credores estrangeiros:

Radwan disse que o Egipto honrará as suas obrigações de dívida e instou os investidores estrangeiros a terem confiança no país. “Todos os títulos de obrigações, tudo será honrado ao seu tempo”, disse Radwan numa entrevista telefónica de 4 de Fevereiro a partir do Cairo. “Nós não estamos deixando de cumprir qualquer das nossas obrigações”. (Bloomberg, 5/Fevereiro/2011)

Numa ironia amarga, a decisão de Mubarak de permanecer como chefe de Estado com a aprovação de Washington serviu os interesses de investidores institucionais, comerciantes de divisas e especuladores.

06/Fevereiro/2011

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=23099

Egipto: Operação de inteligência oculta de Washington

por Michel Chossudovsky

Um misterioso enviado americano, o diplomata aposentado Frank G. Wisner II, foi enviado às pressas para o Cairo em 31 de Janeiro no momento do movimento de protesto para reuniões de alto nível com Hosni Mubarak.

Frank G. e Hosni eram amigos próximos, amizade que remonta ao fim da década de 1980 quando Frank G. Wisner foi embaixador no Egipto (1986-1991).

Wisner atuou como embaixador na altura da Guerra do Golfo. Ele desempenhou um papel chave na negociação do acordo de 1991, o qual comprometeu o Egito não só a participar na Guerra do Golfo contra o Iraque como também a preparar um conjunto de reformas macro-económicas devastadoras sob a orientação do FMI.

Este acordo de 1991 foi ditado directamente por Washington e instrumentado através da Embaixada dos EUA no Cairo.

Frank G. Wisner foi enviado ao Egipto a pedido explícito do presidente Obama “para negociar uma resolução para o movimento de protesto”.

As suas discussões com o presidente do Egipto foram um prelúdio para o discurso de Mubarak na terça-feira 1 de Fevereiro , no qual confirmou que não renunciaria como presidente até a efectivação de novas eleições previstas pra o fim de 2011. Numa declaração pública, Wisner confirmou que deveria ser permitido a Mubarak permanecer no posto. A Casa Branca a seguir esclareceu que isto não era um reflexo da política dos EUA e que a declaração de Wisner era feita a título pessoal.

As reuniões a portas fechadas entre Wisner e Mubarak fizeram parte de uma agenda da inteligência. Washington não tinha intenção de pressionar rumo a uma resolução do movimento de protesto. A sua prioridade era a mudança de regime. O mandato de Wisner era instruir Mubarak a não renunciar, contribuindo dessa forma para desencadear uma atmosfera de caos social e incerteza, sem mencionar a deliberada desestabilização do sistema monetário do Egito resultante da fuga de bilhões de dólares de capitais.

Frank G. Wisner II não é um diplomata americano comum. Ele é membro de uma bem conhecida família da CIA, filho de um dos mais notórios espiões dos EUA, o falecido Frank Gardiner Wisner (1909-1965).

O seu pai dirigiu o OSS (Office of Strategic Services) no Sudeste da Europa durante a Segunda Guerra Mundial. Depois da guerra, ele foi posto como responsável por um certo número de operações de inteligência que sob muitos aspectos estabeleceram o modus operandi da CIA. As suas responsabilidades incluem entre outras coisas propaganda, sabotagem, desinformação através da mídia, etc. Foi ele o arquitetou a Operação Mockingbird, um programa da CIA que consistiu em infiltrar as mídias tanto dos EUA como do estrangeiro.

Em 1952, Wisner tornou-se chefe do Directorado de Planos da CIA, com Richard Helms como seu chefe de operações. (Ver Frank Wisner – Wikipedia , a enciclopédia livre) . Também foi o cérebro por trás do golpe promovido pela CIA que derrubou o governo de Mohammed Mossadegh no Irão, abrindo caminho para a instalação de Mohammad Reza Shah Palavi como “Imperador” e chefe de estado fantoche.

07/Fevereiro/2011

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