Maria Letícia encontra o Papai Noel – Um conto de Natal

Um conto em homenagem a todas as crianças do mundo de qualquer idade até aquelas de mais de oitenta anos e em especial para crianças como Maria Letícia que fez um comentário neste blog e me inspirou pra escrever este breve conto de Natal, o qual continua tendo a magia de corações que acalentam sonhos de todos os seres humanos do Planeta, de todas as idades e de todas as eras.

Atama Moriya, 18-12-2010.

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Maria Letícia encontra o Papai NoelUm conto de Natal

Por Atama Moriya

Capítulo I


Todos os dias, bem ao final da tarde, ela sentava-se naquele tronco trazido para o quintal de sua casa pelo seu pai para quando houvesse tempo construísse uma canoa de pesca, mas já se passaram tantos anos e seu pai nunca havia começado a cavar o tronco, mas sempre dizia que um dia o faria e a levaria para pescar no rio.

Maria Letícia estava agora com dez anos de idade e compreendia que seu pai não tinha tempo suficiente para cavar aquele tronco, pois passava o dia na pequena plantação que tinham ou quando não fazendo trabalho na roça, ia para as matas colher ervas e folhas que trazia em um saco pesado nas costas no final da tarde.

Canoa? Bem, ela brincava com a canoa do pai do Betinho, seu amiguinho da escolinha da vila, que era pescador e passava dias e noites no rio capturando peixes como o tucunaré que ele pescava usando um anzol e imitando uma isca artificial uma pequena casca de árvore seca cortada no formato de um peixinho, e era untado com óleo de peixe mesmo.

O pai de Betinho às vezes levava o Betinho para ajudar na pesca de canoa no rio, e o Betinho contava orgulhoso das vezes que lutavam com grandes peixes como a pirarara vermelha e o rei do rio chamado de piraíba ou filhote, matador de pescador, e o famoso pirarucu de mais de cem quilos. Já o aruanã, ninguém costumava pescar porque há uma crença que este peixe foi um jovem índio que se transformou em peixe de tristeza por um amor não correspondido; diz a lenda que matar o aruanã é trazer a mesma sorte ao pescador.

A carne dos peixes era devidamente secada em defumadores que queimavam folhas e galhos de plantas durante alguns dias e depois levada para a Vila para comércio.

O pequeno vilarejo abrigava apenas vinte famílias embora no passado já houvessem morado mais de cem, principalmente na época que era um quilombola, mas o tempo foi passando, muitos se juntaram, mas por falta de perspectivas a maioria foi se mudando para vilas maiores ou para cidades.

Para chegar ao vilarejo não há estradas, apenas um caminho de décadas com mais de setenta quilômetros até a vila mais próxima de onde pode se acessar a estrada em direção a cidade mais próxima distante mais cem quilômetros.

Os poucos moradores do vilarejo de Maria Letícia gostavam desta solidão do mundo, fincados no meio da mata de cerrado no alto do Araguaia, na fronteira com o Pará e próximos da Serra do Cachimbo.

Já era o mês de dezembro, bem próximo do Natal, quando numa tarde ensolarada Maria Letícia  e Betinho estavam conversando à beira do rio, brincando de jogar pedras sobre as águas, e surgiu o assunto do lago sinistro. Corria sempre umas estórias estranhas dos adultos sobre este lago que ficava próximo ao local, do outro lado da margem do rio, algo em torno de uns trezentos metros mata adentro. Diziam que muita coisa estranha aconteceu ali, inclusive desaparecimentos de pescadores que nunca mais foram vistos, apenas os restos de suas coisas foram encontrados nas margens do lago.

– Betinho, você acha mesmo que existe um bicho-papão no lago sinistro? – perguntou Letícia.

– Não sei, mas meu pai sempre me diz que para lá ninguém deve ir e que ele já perdeu dois amigos que bancaram os valentões e foram passar a noite pescando lá. – respondeu o menino que também tinha apenas dez anos de idade como ela.

– Por que a gente não vai até lá dar uma olhada e volta correndo? – indagou Letícia – Sempre tive a curiosidade de ver também o que tem no lago – Será que tem algum monstro? – forçou a menina.

– Ahh, não sei não. Tenho medo só de pensar. – respondeu Betinho.

Letícia sempre foi mais corajosa e curiosa que Betinho, e por isso mesmo, voltou a insistir.

– Você tá com medo, mas num precisa, eu vou junto e te dou minha força.

– Pára Letícia, eu tenho medo, mas sou homem, não quero ir porque não tenho vontade, só isso! – desculpou-se Betinho.

– Você está com medo sim, mas não faz mal, ainda é cedo, vou sozinha, só me leva de canoa pro outro lado. – provocou Letícia.

– Imagina eu, medo! – nada disso, se quiser ir, te levo pro outro lado e vamos juntos ver o lago.

– Criou coragem agora?

– Eu sou corajoso, não sou covarde, só dar uma olhada não custa nada. – retrucou Betinho.

– Sabe como chegar lá? – Perguntou a menina.

– Sim, meu pai me mostrou, é só seguir o canal que desagua na cheia. Agora tá seco ainda.

Então, as duas crianças, cheias de coragem e curiosidade subiram na canoa e remaram até o outro lado do rio até encontrarem as marcas do canal seco nesta época do ano.

Pelo forte calor e posição do sol, Betinho calculou que devia ser umas três horas da tarde, mais ou menos. Enquanto desciam e amarravam a canoa, Betinho combinava com Letícia:

– Vê se anda bem atrás de mim, seguindo os meus passos, temos que ter cuidado nesta mata, pode ter alguma cobra no caminho. E quando chegarmos bem perto do lago vamos com cuidado, pode ser que o monstro do lago seja uma sucuri gigante que comeu as pessoas.

– Tá bom, pode deixar que vou prestar bastante atenção, mas se a gente ouvir barulho na mata vamos tentar subir numa árvore, porque tenho medo de onça e aqui tem muitas.

– É, tem razão, mas elas só costumam caçar a noite. – respondeu Betinho. – Pelo menos é o que meu pai me diz sempre.

E assim as duas crianças adentraram mata adentro e embora a floresta fosse bem fechada com árvores altas e frondosas, dava para seguir pelo canal seco que ligava o lago ao rio.

Aparentemente tinham perdido o medo, e conversavam animadamente sobre o que poderiam encontrar no lago oculto na floresta e estavam muito curiosos de saber como era. Apenas Betinho sentia certo medo com relação ao seu pai que havia dito para que ele nunca se aproximasse deste lago.

Já Letícia parecia que nada sentia de medo, pois até cantarolava pelo caminho e pensava dentro de si que se havia algum perigo devia ser a noite apenas. E ela tinha medo da mata no escuro, pois sempre se contavam estórias de estranhos bichos que ficavam espreitando as pessoas do vilarejo durante a noite. Por isso, depois que escurecia, ela não saia de casa e ficava sempre perto do lampião até a hora de dormir.

Após mais de meia hora de caminhada pela mata alta e fechada, com árvores enormes de mais de trinta metros de altura que nem o sol deixava passar, as crianças finalmente chegaram a uma área em que se via a claridade do céu e justo se apressaram para ver.

– continua –

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Maria Letícia encontra o Papai Noel – Um conto de Natal

Capítulo II


Ao se aproximarem podiam ver uma clareira enorme entre as arvores, mas não viam a água, pois as margens daquela clareira ainda estavam protegidas por uma mata como capim maior que eles, então trataram de caminhar por esta beira até encontrarem uma abertura por este mato e nisto conseguiram finalmente se aproximar de um barranco que descia suavemente para a beira do lago que então surgia magicamente em meio aos troncos de árvores que circundava a lagoa.

Por alguns minutos ficaram observando estupefatos com a visão; as águas apareciam calmas e tranqüilas, muitos pássaros voavam próximos em grande ruído, estavam no que imaginavam ser uma ponta mais estreita do lago que dava acesso ao canal agora seco, e a forma parecia ser de um ovo, pois à medida que a vista se afastava para a direita as margens se afastavam e o lago se tornava enorme e muito largo perto do centro e era tão comprido que não dava para ver aonde terminava, porém podiam-se observar árvores bem distantes na outra ponta que provavelmente delimitavam as suas margens.

Nestas margens as crianças perceberam que era provavelmente freqüentada por grandes animais, pois havia muitas marcas de patas pelo chão, algumas enormes de onça e outras marcas grandes que eram de jacarés.

Quanto a isto as crianças não se intimidaram, pois já tinham visto estas marcas muitas vezes na prainhas do rio; então se aproximaram mais da margem do lago.

As águas pareciam paradas, apenas pequenas ondulações formadas pelos leves ventos, diferentemente do rio onde as águas corriam sempre. E estavam mais próximos ouvindo aqui e ali o barulho de grandes peixes saltando atrás dos pequenos peixes perto dos troncos das margens.

O sol resplandecia pelo centro do lago, mas as margens eram guardadas em sombras formadas pelas árvores enormes que circundava toda a sua volta e davam um ar frio e misterioso.

Betinho e Maria Letícia extasiados pela visão e pelos mistérios que sempre ouviram sobre a lagoa, deram-se as mãos, talvez com um pouco de medo e procuraram se sentar calados num tronco de arvore caída sobre a água e que se alongava em raiz sobre o barranco.

– Letícia, acho que aqui não tem nada demais, parece um lago qualquer até dá para ver o peixes grandes passando perto das margens. – Observou o menino.

– É Betinho, mas tô sentindo um calafrio aqui. Dizem que aqui já sumiu muita gente nossa.

O menino também sentia certo medo, mas procurou disfarçar dizendo:

– Pode ser, na dúvida, acho que devemos ir embora logo, até voltarmos pra vila já será bem final do dia, se escurecer não conseguimos voltar pela mata fechada.

Maria Letícia não respondeu, e preferiu ficar olhando na margem rasa pequenos peixes coloridos que nadavam tranquilamente, havia muitos deles, eram os acará-bandeira, os neons e vários outros. Ela já os conhecia, entretanto, nunca tinha visto tantos juntos, logo pensou que o lago era uma espécie de berçário para estes pequeninhos.

Logo ela se lembrou que o próprio Betinho havia lhe dado dois peixinhos coloridos pegos no rio com redinha e colocados num vidro de maionese. Eram lindos, mas ela logo se apressou em soltá-los de volta ao rio antes que morressem e eles mereciam viver livres, como estes que estavam agora no lago.

Ambos ainda estavam meio absortos curtindo a natureza do lago quando ouviram um enorme som que veio de todos os lugares, pelo menos pareceu assim. Foi como um grande som de um sino, uma batida seca, mais parecendo uma grande batida de metais que deixou uma grande vibração no ar.

Assustados, as crianças caíram no chão e enquanto emitiam gritos estridentes de surpresa e susto.

– Que foi isto? – gritaram juntos

– Ai meu Deus! – exclamou Letícia.

– Caracas!!! – exclamou Betinho – Estou arrepiado até o cabelo!

– Vamos fugir Betinho! – gritou Letícia.

– Vamos agora Letícia!

Quando se aprontaram a ficar de pé novamente aconteceu algo mais surpreendente ainda, pois, a mata silenciou completamente, nem os pássaros voavam mais e tinham sumido completamente, até mesmo os pequenos macacos pregos que faziam algazarra por perto davam sinais de vida. Nisto observaram também que a água do lago meio que paralisou completamente e parecia tornar-se como um grande espelho que refletia a imagem da mata.

Mais ao centro do lago aconteceu que uma enorme luz se fez, como uma grande bola de energia reluzente e brilhante em plena luz do dia ainda, e quase cegava a vista, como um sol!

Letícia fechou as pálpebras dos olhos pra se proteger e com as mãos procurou cobrir a vista, já Betinho ficou paralisado, como que petrificado, olhando aparentemente para aquela bola enorme de luz, quase do tamanho do lago que surgiu como do nada.

Gesto instintivo, Maria Letícia nem pensou mais, e pôs-se a correr em direção à mata, e gritava como uma louca, e correu, correu, muito, não sabe o quanto e por quanto tempo, finalmente caiu exausta na mata entre as árvores gigantes.

De onde estava não ouviu mais nada, apenas silencio, e só então percebeu que Betinho tinha ficado ou ido para outro lugar. Muito assustada, temeu fazer barulho e chamar a atenção sei lá do que fosse aquilo, e então se escondeu entre as moitas, bem agachada e quietinha.

Não ouvia nenhum barulho, nada, nenhum ruído, o que era estranho, pois sempre havia animais e pássaros se movimentando nas árvores. Nem ouvia o barulho de farfalhar das folhas e nenhum vento parecia soprar naquele momento. Apenas o ruído do seu coração, que batia forte e parecia querer sair do peito. As pernas, os braços e as mãos tremiam e suava muito tamanho era o medo que sentia, nisto pareceu que tudo escurecia e Maria Letícia desmaiou.

– continua –

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Maria Letícia encontra o Papai Noel – Um conto de Natal

Capítulo III


Quando Maria Letícia despertou já estava quase escuro o dia, o sol já tinha se posto e os pássaros se agitavam ruidosamente pelo ar para encontrar abrigo noturno.

Aos poucos a menina foi se lembrando o que ocorrera, então, como que cutucada levantou-se rapidamente e pensou por onde andaria o Betinho.

Rapidamente esquecendo-se daquela luz no lago e medo que sentira, começara a chamar bem alto:

– BE-TI-NHOOOOO!!!

– BE-TI-NHOOOOO!!!

Mas nada do seu amiguinho responder, apenas os animais da floresta pareciam ter ouvido posto que uma revoada de papagaios deu o ar das graças pelo ar, com toda aquela gritaria de final de tarde.

Então Letícia para pensar. Precisava encontrar o Betinho, já era quase noite, será que ele ainda estaria no lago? Será que ele já teria ido embora? Preocupada, Letícia resolveu procurar de volta no lago e para lá se dirigiu. Não estava mais com medo, mas muito preocupada.

Estava tudo muito calmo, como da hora em que chegou com Betinho, mas não havia nem sinal de onde ele estaria.

Nervosa e sem saber ao certo o que fazer, Maria Letícia passou a chamar por ele aos berros:

– BE-TI-NHOOOOO!!!!!

Gritou repetidas vezes, mas nenhuma resposta.

E agora? – pensou a menina. O que eu vou fazer?

Ainda sem nenhuma decisão, sentou-se no mesmo tronco a beira do lago e pôs-se a pensar.

Pensou em tentar ir embora, porém, ela mesma não achou que seria justo abandonar o Betinho e tinha certeza que ele também não faria isto e deveria estar à procura dela naquele momento. E assim, conclui que o melhor seria esperar ali mesmo, enquanto isto continuaria a gritar pelo seu nome.

De outro jeito, pensou ela, já estava ficando muito escuro e andar pela mata sem conhecer direito o local, ela achou que logo se perderia também.

Mas com tudo, Maria Letícia jamais abandonaria seu amiguinho. E tinha até esquecido o seu medo e tinha esquecido também que aquele lago trazia perigos desconhecidos. E corajosamente continuou a chamar o seu amigo gritando o seu nome.

O tempo passou e logo se fez noite e a escuridão tomou conta. A pouquíssima iluminação vinha da lua que começava a despontar.

Triste e sem saber o que mais fazer, a menina sozinha naquele escuro e a beira daquele lago misterioso logo começou a temer que algo acontecera ao Betinho enquanto ela fugia, talvez algo grave, pensou ela, algo muito grave; será que ele ainda estava vivo?

Logo uma dor no peito tomou conta da menina e então ela começou a chorar baixinho e imediatamente lembrou-se de rezar para Deus e pedir a Deus que a ajudasse naquele momento difícil.

– Por favor, Papai do Céu, sei que pode me ouvir, por favor me ajude, traga o Betinho de volta, por favor! E entre um soluço e outro, pedia: – Por favor, Papai do Céu me ajude, não me deixe aqui sozinha…

A pequena Maria Letícia continuou em suas preces:

– Pai do Céu, queria fazer uma oração, mas não sei direito rezar porque minha mãe também não sabe direito e aqui não tem ninguém para ensinar, mas por favor, não me deixe aqui sozinha, me ajude a encontrar o Betinho, por favor, me traz ele de volta.

E com isto a noite adentrava mais e mais, e mesmo os ruídos mais fortes na mata atrás de si não mais a preocupava, apenas continuava a soluçar baixinho e as lágrimas já não a deixavam pensar direito, apenas uma grande tristeza se abatia sobre ela.

Mais algum tempo e a noite se fez completa e a lua aparecia resplandecente derramando suas luzes foscas sobre as águas e formava fachos espelhados que pareciam cintilar na noite.

Enquanto isto a pequena Maria Letícia com seu corpo mirradinho ia se curvando enquanto permanecia sentada sobre o tronco de árvore à beira do lago espelhado pela lua.

Já não tinha forças para continuar a chorar e quietinha apenas rezava para o papai do céu com a cabeça debruçada sobre seus braços cruzados sobre os joelhos dobrados.

E logo pareceu que adormecera de novo cansada pela tensão daquele dia.

– continua –

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Maria Letícia encontra o Papai Noel – Um conto de Natal

Capítulo IV


E algo aconteceu naquele momento quando uma iluminação forte se fez presente no centro do lago, e onde era noite pareceu tornar-se dia de novo, e ao contrário do que acontecera naquela tarde, desta vez Maria Letícia não correu e apenas levantou a cabeça para olhar o que estava acontecendo.

Nisto aconteceu que do centro de luz aos poucos foi ouvindo um som como tilintar de sinos como musica suave e extremamente agradável e aos poucos, também, em meio a claridade forte a menina observou o aparecimento de cavalos brancos que puxavam um carruagem dourada que brilhava tanto que parecia fogo dourado e ao centro da carruagem que era aberta havia um ser que irradiava uma força extraordinária sentado ao centro, vestido ao que parecia uma túnica prateada adornada por pedrinhas vermelhas que reluziam no peito como pontos de luz.

Maria Letícia não sentiu medo algum apenas levantou-se e pôs-se de pé olhando a carruagem se aproximar puxados por cavalos brancos que voavam no ar puxados por asas brancas e então conseguiu ver os unicórnios dourados dos cavalos.

Logo a irradiação luminosa alcançou a menina e a absorveu completamente e de repente ela se viu em outro lugar, parecia não haver o piso, era apenas uma névoa fina sob os pés, na verdade, Maria Letícia parecia estar flutuando, e enquanto admirava espantada em direção aos seus pés, a carruagem parou ao seu lado e aquele ser enorme desceu daquele veículo. Era um homem bem grande com cabelos como que dourados e uma longa barba também dourada; jamais Letícia havia visto alguém tão alto e de perto também pode observar os enormes cavalos brancos com um chifre dourado saindo de suas testas e suas asas brancas eram também grandes.

A pequena menina permaneceu apenas espantada com toda aquela beleza que se apresentava, mas não sentiu medo algum, ao contrário, passou a se sentir tão segura, tão calma e sentia que uma grande felicidade tomava e deixava seu pequeno corpo tão leve, como se flutuasse no ar.

Aquele ser que parecia irradiar luz se aproximou da menina enquanto ela admirava aqueles grandes olhos que reluziam um azul como raios e ela era tocada por um magnetismo do qual não conseguia se desprender daquele olhar.

– Olá Maria Letícia – pode ouvir dentro de sua cabeça, era um som forte mas ao mesmo tempo suave e doce

– Puxa como sabe meu nome? Perguntou ela.

– É, ouvi você me chamar e então aqui estou.

– Mas quem é o Senhor? – indagou ela.

– Sou digamos, o seu Papai do Céu.

– Mas como assim? O Senhor é Deus? – questionou.

– Não, não sou Deus, mas filho de Deus.

– Mas não entendi, como assim, filho? O Senhor não é o Papai do Céu? Não é o que disse?

– Sim, sou, mas também sou filho e também sou Pai, pai de todos os pais, e também pai de todos que vivem na Terra.

– Puxa, não estou entendendo nada. – retrucou a menina.

– Sim, eu sei que ainda não entenderá, mas um dia com calma. – ouviu em sua mente a resposta.

– Como o Senhor fala dentro da minha cabeça? – perguntou a menina.

– Bem, é um processo que uso pra me comunicar através de você mesma. Minha voz natural retumbaria de forma tão forte que poderia te prejudicar.

– Senhor, não estou entendendo nada, mas posso saber se eu morri e estou no céu?

– Não, pequena Maria Letícia, você não morreu, apenas ouvi o seu chamado e porque você é uma boa menina é que estou aqui para atendê-la e cuidar de você. Não se preocupe, vai ficar tudo muito bem.

– Como devo chamá-lo, senhor?

– Me chame como quiser, talvez seja mais fácil me chamar de Papai Noel.

– Ah, não, não me diga, o Senhor é o Papai Noel? Mas me ensinaram que ele não existe, mas eu acredito que exista sim, mas não vem visitar nossa Vila porque fica muito longe e é muito pobre. – contou a menina.

– Hummm, acho que você terá que ter paciência e com o tempo compreenderá que ele existe porque sou eu, aqui na sua frente, mas não é como as pessoas contam para você.

– Como assim? O Senhor não viaja pelo mundo na noite de Natal pra entregar presentes para as crianças? – perguntou a menina.

– Eu viajo todos os dias para todos os lugares e para todos os lares e não é só na noite de natal, mas a todo instante, basta me chamar, e levo presentes sim, para aqueles que conquistaram este direito através de seus esforços pessoais, este presentes são as próprias conquistas de cada um, contados todos os méritos desta vida e de vidas anteriores também. Mas isto tudo é muito complicado para que você compreenda neste momento.

– Mas se eu me esforçar posso entender? – indagou a menina.

– Certamente que sim, podemos nos encontrar outras vezes e aos poucos posso te explicar tudo melhor, mas neste momento basta que saiba que todos os seres humanos são merecedores de presentes do Papai Noel, e todos recebem este presentes, apenas que a maioria não compreende assim e tampouco acredita, mas isto não faz nenhuma diferença porque um dia eles conhecerão a verdade.

– Eu posso ganhar uma bicicleta este ano? – Letícia se adiantou em saber.

– Pode ser que sim e pode ser que não, depende de seus pais também e das condições que eles tenham para comprar uma bicicleta, o que não invalida o seu mérito e você tem muito. Muitas vezes não receberás aquilo que pretende receber, mas os seus pedidos são devidamente anotados para serem concretizados mais cedo ou mais tarde, muitas vezes em lugar da bicicleta receberá outros presentes que serão mais importantes para você.

– Mas você sendo o Papai Noel não pode me dar uma bicicleta, meus pais não tem dinheiro para comprar uma. – choramingou Letícia.

– Minha jovem, de todo o coração sei que mereces esta bicicleta e muito mais, está escrito em seu livro com letras de ouro, entretanto, este teu desejo já conquistastes através de dons que tens nesta vida e muitos outros virão no devido tempo.

– Como dons? O que é isso?

– São como virtudes e graças que vão se materializando em sua vida, aos poucos, conforme for devido e importante para seu crescimento como ser humano.

– Não entendi muito bem o que está me dizendo, mas acho que não vou ter nenhuma bicicleta este ano, não é isso?

– Maria Letícia, mais adulta, quando for mais velha se lembrará desta conversa e compreenderá que dons são estes que recebes a cada dia de sua vida e são presentes meus para você.

– Não faz mal, eu posso ficar sem a bicicleta, já que eu não vou ganhar mesmo. – resignou-se com jeito amuado.

– Hahaha! – riu-se o ser. – Mas não se preocupe e nem fique triste minha pequena, para ti reservei um futuro maravilhoso, mas não posso revelar o que é e o que acontecerá, apenas se lembre de minhas palavras. Nenhum filho meu é esquecido, todos são lembrados todos os dias e por toda a vida, alguns com acontecimentos difíceis, mas necessários para o seu crescimento, e outros com muitos presentes que serão como dádivas conquistadas por seus merecimentos.

– Bastante complicado de entender Papai Noel, e que outras coisas você faz?

– Muitas coisas minha filhinha, eu também estou em partes minhas na Terra, na Lua, no Sol, na Natureza, nos animais, nos insetos, ns flores, e até mesmo dentro de você.

– Noooosaaaa! Você está em todas as partes? Você é Deus?

– Não sou Deus, mas sou filho incriado do Grande Pai, e você minhas crianças são todos filhos meus, estou desde o inicio da criação do mundo que conhece e até mesmo antes e de outros mundos também, e vou estar com todos até os fins dos tempos. Também sou conhecido por outros nomes, como Raphael ou ainda Melquisedec.

– Raphael? Nossa é um bonito nome, e o outro Mel…o que?

– Melquisedec, ou se preferir, Rigor-e-Amor.

– Ah, sim… – exclamou a menina fingindo compreender.

– Também sou conhecido como Noé, da Arca de Noé.

– Não sei quem é este – respondeu a menina.

– Sim, não faz mal, um dia me lembre de te contar o que significa este nome.

– Tá bom, Senhor Noé. Mas bem que gostaria de um presente, se não for pedir muito. – insistiu a menina com seu olhar e sorriso brejeiro.

– Terás o seu presente menina, terás, tenha a certeza disto e não se arrependerá em acreditar em mim.

– Eu acredito – disse ela em resposta.

– Mas Sr. Noel, estou preocupada com o Betinho, ele estava comigo no lago e sumiu, você sabe onde ele está?

– Sim, é claro, não se preocupe, apenas que ele teve um choque na visão da luz que é um portal que se abre para os nossos mundos da Terra, dentro da Terra, e por isso meus auxiliares o trouxeram para cá para recuperá-lo, mas já está bom, somente que ele não vai poder se lembrar do que se passou aqui e logo vou enviá-lo de volta à Vila de vocês, junto com você. Não se preocupe menina, como eu disse, está tudo bem.

– Quem são os seus ajudantes Papai Noel?

– São … como vou explicar? Bem, são como anjos muitos deles e outros são irmãos seus que por méritos já me acompanham nos trabalhos de cuidar de tudo no mundo.

– Vixe… parece complicado.. – respondeu a menina.

– Quero que compreenda Maria Letícia que tudo que estou te dizendo deve ficar em segredo entre nós, nem mesmo os seus pais e seu amigo Betinho poderão saber o que se passou e que encontraste comigo hoje. Ainda não é tempo.

– Por quê?

– Como te disse, existe algo chamado merecimento conquistado e apenas você já o tem devido ao seu esforço pessoal, mas existem muitos outros no mundo que são como você e logo também saberão disto, e cada um de vocês se lançara em vida para realizar grandes coisas na vida.

– Poxa, é complicado isto. Pois é, mas você poderia me contar mais, estou com muita vontade de aprender mais.

– Sim, certamente, virei te ver outras vezes Maria Letícia, apenas tenha paciência. Das próximas vezes te mostrarei outras partes deste mundo que é seu também, apenas que você ainda vai conhecer melhor e te explicarei muitas coisas que gostarás de saber e que serão muito importantes para você.

Maria Letícia ouviu tudo com atenção e embora não tenha entendido muito bem tudo que acontecia, se sentia tão bem ali ao lado daquele ser que chamava de Papai Noel que não pensaria duas vezes em retornar para aprender mais e conversar mais sobre todas as coisas que ele falava. Um sentimento de alegria o qual ela não conhecia antes a tomava por completo e aquela sensação de paz e aquele perfume de rosas que sentia a deixavam muito feliz e leve como uma pluma, não dava nem vontade de se mexer daquele lugar maravilhoso, a luz suave dominava o ambiente embora não soubesse de onde vinha, e onde olhasse parecia que o céu era infinitamente azul claro, mas de uma cor tão viva que Maria Letícia jamais tinha visto igual.

– Maria Letícia, está na hora de você voltar, seus pais estão preocupados, vou levar você e Betinho de volta para a Vila, mas será assim, num piscar de olhos e você estará com ele no quintal de sua casa, ele não se lembrará bem do ocorrido, apenas pensará que vocês voltaram tarde da lagoa e para ele nada aconteceu.

– Entendi. – respondeu a menina – E não devo contar nada para ninguém, não é isto?

– Sim minha pequena. E a canoa deixarei no lugar de sempre a beira do rio, não se preocupe.

– Tá bom Papai Noel, mas me promete que o verei de novo, eu quero conhecer outras coisas e estar de volta aqui mais vezes pra conversarmos. – pediu ela.

– Certamente Letícia que nos veremos novamente, as vezes você será trazida para aqui em sonhos enquanto dormir, outras vezes pedirei para meus auxiliares irem de buscar, está combinado?

– Claro, mas como saberei que são eles? E como eles são? – perguntou a menina.

– Saberá porque irão buscá-la em carruagens como a minha, mas somente você verá ela, e eles são seus irmãos mais velhos e você os reconhecerá rapidamente. Prepare-se que está na hora – determinou o Grande Ser – conte até três…

– Tá bem, um…dois….

– continua –

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Maria Letícia encontra o Papai Noel – Um conto de Natal

Capítulo V – Final


E três .. e lá estava ela no quintal de sua casa, era tarde da noite e Betinho estava ao seu lado e justamente dizendo:

– Letícia, seus pais e meus pais vão ficar uma fera que chegamos bem tarde de volta, mas a gente se perdeu para voltar pela mata, será que eles vão nos perdoar?

– Ihhh Betinho, não sei não, mas acho que sim. – respondeu menina com sorriso no rosto, mas um pouco em duvida se o que ela vivenciara era real ou não. Poderia ter sido apenas sua imaginação.

– Letícia não conta que a gente foi pro lago, apenas diga que a gente se perdeu um pouco na mata atrás de passarinho.

– Tá bom, Betinho, pode deixar. Então corre para sua casa enquanto eu entro na minha. Tchau e até amanhã.

– Tchau Letícia, até amanhã.

Após a despedida, ela correu para dentro de casa e encontrou seus pais preocupados com demora e sua mãe logo chamou a sua atenção:

– Menina doida, nunca mais faça isto. Não vá para onde não conhece e sempre volte antes do escurecer. Eu e seu pai já estávamos indo procurar você e o Betinho. Na verdade já estávamos indo, mas na hora o seu Juvenal que tinha ido para cidade e voltou somente hoje, trouxe umas caixas lá da cidade para você e Betinho. – contou a mãe da menina.

– Como assim, mamãe? – perguntou curiosa.

– Pois é, ele também não sabe bem explicar, mas acontece que um homem ontem antes dele vir embora procurou ele e disse que tinha a incumbência de deixar com o seu Juvenal duas caixas com duas bicicletas desmontadas, pra ser montadas aqui e que eram presentes de alguém que viveu aqui mas ele não recorda o nome, pois não é que ele esqueceu o nome.. Que coisa estranha… – explicou a mãe.

– Mãe, a senhora falou bicicleta para mim e para o Betinho?

– É isso mesmo! A sua ta lá na caixa e seu pai pode montá-la pra você, não é meu velho? – perguntou olhando para o pai de Letícia.

– Claro, minha filha, se quiser eu monto ela agora mesmo, achei estranho, mas acho que é o padrinho de vocês que se mudou daqui a muito tempo, o seu Marcão. Eu acho que ele se alembrou de vocês. Bom sujeito aquele camarada!

Naquele instante Maria Letícia, se arrepiou toda, e já sabia o que tinha acontecido! E abriu um largo sorriso no rosto e exclamou:

– Eba!!!Eba!!! É meu presente de Natal do Papai Noel!!! – gritou – E começou a rir que não conseguia mais parar de tanto rir….. de alegria.

Seus pais permaneceram calados, olhando estupefatos com aquela alegria da filha e no fim começaram a rir também.

——- fim —–

Um conto de Atama Moriya, em 18-12-2010.

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