Os desafios que a humanidade enfrenta e que criarão novos paradigmas de sobrevivência e huma-unidade – Parte 15

Completa neste mês dois anos desde que postei a parte 14 da série. E volto novamente para comentar o que mudou desde então.

Para dizer a verdade, quase nada. A economia americana sobre a qual todas as economias depositam suas esperanças de continuarem a crescer balança, balança, mas não cai, não ainda.

O desemprego americano continua em alta, uma parte da população americana desempregada ou sem condições de arcar com dispendiosos planos de saúde foi acalmada com o SUS americano, copiado do nosso, com certeza, embora ninguém o diga, mas já era muito elogiado pelos analistas americanos.

Pena que o nosso sistema, embora muito bom, não funcione a contento, graças aos poucos investimentos em saúde dos governos estaduais. Mas esta é outra discussão que não cabe aqui.

Cerca de 30% das famílias americanas hoje são atendidas apenas pelo plano de saúde do governo americano, fato inédito para aquele país e que prova mais uma vez que o nível de empobrecimento da família americana aumentou muito nas ultimas décadas conforme os principais economistas americanos têm ressaltado há anos.

Mas o que fica claro é que não existem possibilidade de reversão desta queda da renda familiar por conta não somente na crise que empurrará os salários para baixo, ainda mais, mas porque a economia americana como um todo está em crise estrutural e isto é algo que não se resolve apenas com a boa vontade do Presidente Obama, o qual já conta com muitos desapontamentos nos EUA.

Todo mês surge uma nova crise financeira, a ultima que sucede a crise dos cartões de crédito e que ainda encontra-se em aberto e não solucionado, se refere ao também elevado índice de inadimplência das bolsas de estudos em Universidades. O sistema de financiamento dos estudos está falido e já soma algumas centenas de bilhões de dólares no rombo e tende a crescer nos próximos meses e anos, porquanto o estudante formado não encontra emprego para poder honrar os pagamentos. Novamente o governo deverá criar uma moratória e socorrer as instituições fortemente afetadas. Até quando estes socorros serão possíveis? Ninguém sabe ao certo, porquanto, ao que parece, seria apenas a emissão de mais dólares pelo FED.

Na contra-mão americana encontramos várias economias em desenvolvimento que não são e não foram afetadas pela crise dos americanos e do MCE e continuam a crescer vigorosamente, como o BRIC, a Turquia e tantos outros. A China inclusive ultrapassou bem antes do fim de ano de 2010 a economia do Japão, tornando-se, portanto, a segunda maior economia do mundo. Isto diz alguma coisa?

Certamente. Nada é por acaso. Seguindo a esteira chinesa mesmo o Brasil continua a crescer solidamente, embora bem menos que dezenas de países em desenvolvimento, mas cresce.

Poderíamos ter crescido muito mais, mas graças a políticas econômicas equivocadas dos últimos vinte anos, nosso crescimento ainda é muito tímido diante do potencial que temos. Só para citar um exemplo, a nossa taxa SELIC a 10,75% é no mínimo bizarra para um país que busca o crescimento e a redução do desemprego. Temos três opções, é burrice, falta de imaginação ou má-fé. Qual você escolhe?

A Europa entrar em crise já era esperado, uma vez que seguia à risca os movimentos da economia americana, ou melhor, o movimento geral de todos os países ricos, os chamados países do Norte.

Fica claro que as populações dos países do Norte vivem de ilusão de que são ricos e na média tinham e tem ainda um padrão de vida que absolutamente não condiz com o que produz, e isto está ficando cada dia mais claro. O tempo vai passando e as economias menos capacitadas em enfrentar estes novos desafios econômicos vão sucumbindo primeiro, como é o caso da Grécia. E muitos outros países estão nesta rota que considero irreversível, como a Espanha com taxa de desemprego de 15%, Portugal que capenga, e França e Itália. Até mesmo a Inglaterra está com altíssimo déficit público e não sabe como resolver. Creio que é uma questão de tempo até a zona do Euro ser reduzida a poucos países. Enquanto há credito vai se levando, mas até o crédito tem um limite, talvez dois a quatro anos.

Mas do que vivem ou viviam as economias do Norte?

Em grande parte das transferências econômicas advindas de países pobres e em desenvolvimento, e ainda é assim.

Na prática a fonte está secando. Os países pobres, capitaneados pelos países em desenvolvimento, tais como o BRIC e economias produtoras de petróleo estão mudando a história da humanidade.

Cada dia que passa este mecanismo de transferência econômica está se fechando, ou com legislações mais duras, mais impostos ou mesmo com os sucessivos aumentos das commodities, alem é claro que houve uma forte industrialização nestas economias do Terceiro Mundo o que agregou muito mais mão de obra e tecnologias em seus países.

Mas este não é processo que começou agora e está acontecendo agora. Pensar isto é errado.

Isto tudo começou lá atrás, antes mesmo da década de 90, mas se acentuou nestes últimos vinte anos. Mesmo com grandes sacrifícios, os países produtores de petróleo trabalharam no desenvolvimento de tecnologias para fortalecer as suas bases industriais a ponto de torná-los menos dependente de produtos industrializados dos países mais ricos.

Antes os países do Sul eram muito vulneráveis às crises econômicas que poderiam ser deflagradas a partir dos países ricos dos quais se dependia de tudo. Hoje não são mais tão vulneráveis.

É indubitável que o petróleo foi o ponto de partida para a virada do jogo.

Antes era vendido a preços baixos, tão baixos que mal cobriam os custos de extração, o qual hoje se verifica que se torna bastante rentável apenas se vendido entre US$- 60 a US$- 80 dólares por barril. Imagina então sendo vendido a 10 dólares. Mas os países produtores conseguiram, através da OPEP, elevar os preços lentamente nos últimos anos  a ponto de obterem muitos saldos positivos na balança comercial e sem temer as contrapartidas comerciais que não vieram porque eles já estavam preparados.

Seguindo esta rota vários países se prepararam também, mesmo não sendo exportadores de petróleo, como a China no seu plano de cinqüenta anos. E também países como a Austrália, Indonésia, Tailândia, Turquia, Coréia do Sul e o Brasil, cujas indústrias se fortaleceram em tecnologias por conta da necessidade de competir sem depender dos outros.

A crise do petróleo, é crise sim, mas muito mais para os países que mais consomem. Hoje o consumo mundial é da ordem de 80 milhões de barris/dia, sendo que cerca de 80% é representado pelos países ricos, daí porque eles se tornaram mais vulneráveis. Somente os americanos consomem 35 milhões/dia, o Brasil, a título de comparação, perto de 3 milhões/dia.

A indústria petrolífera trabalhava no vermelho desde 1970 até a década de 1990, quando então se observássemos os gráficos produzidos pelas grandes indústrias petroquímicas, veríamos que o ponto de virada estava já marcado para à partir do ano de 2000. Isto é suficientemente claro para demonstrar que as mudanças de rumo na economia mundial já estavam preparadas.

Não era nenhum segredo, tanto que os aliados ricos desde a década de setenta buscavam a todo momento impor controle sobre a OPEP, culminando com a desastrada invasão ao Iraque e quiça tenham mesmo fomentado muitas guerras anteriores a esta, como os conflitos no Kuwait, na Síria, Líbano e Irã que antes da revolução dos Aiatolás era um feudo político e econômico americano e só produzia petróleo e não tinha praticamente nenhuma indústria.

Até mesmo a Venezuela, um produtor considerado pequeno e pobre vivia uma situação inusitada de pobreza onde até mesmo abridores de garrafa e papel higiênico eram importados dos EUA.

Mas o eixo da riqueza está mudando. Está mudando para o Sul e embora paulatino, este movimento é inexorável e será plenamente visível em mais vinte anos apenas.

Os aumentos no petróleo arrastam consigo significativos aumentos dos preços de comodities de alimentos e matérias primas, como os minérios de uma forma geral, notadamente o minério de ferro. Então economias bastante dependentes de exportação passaram a obter fortes superávits comerciais que permitiram produzir mais riqueza e desenvolvimento econômico, principalmente na área de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias. E isto vai mudar o mundo, já está mudando. Está mudando o Eixo do Poder.

Não há mais como alterar este rumo, o trem do Sul está a pleno vapor e ele não pode mais ser parado, a não ser por uma terceira guerra mundial. Será?

O Brasil, se for inteligente, vai aplicar imediatamente toda a reserva externa de 250 bilhões de dólares aqui no país, principalmente em educação e pesquisa, e não deixar este montante aplicado em dólares. Não precisamos dele lá fora em bancos americanos, mas aqui para produzir desenvolvimento na economia que carece de investimentos maciços.

Consumir todas as reservas internamente tem sido as políticas de sucesso da maioria dos países em desenvolvimento e por que novamente vamos andar na contra-mão e arriscar perder o bonde do Sul? Hoje, o nosso Banco Central está atrasando propositalmente o nosso crescimento, alguém tem de eliminar esta autonomia concedida por forças de idéias neo-liberais que fracassam no mundo. Um absurdo num país em que dentro vive uma África com quase 70 milhões de miseráveis, mas pensa e age como se fosse rico.

Recentemente, Paul Krugman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, alertou em entrevista exclusiva no Brasil para o site Economia & Negócios, que considera um excesso de otimismo com a emergência do Brasil no cenário mundial: “A ideia do Brasil como uma futura superpotência econômica ainda é muito baseada na especulação sobre suas conquistas. Espero que um dia seja verdade, mas ainda não vejo isso acontecendo.”

Obviamente ele considera apenas o estado atual, mas como economista deveria analisar as fundamentações econômicas vigentes e que estão determinando o nosso sólido crescimento econômico, embora pequeno dentro do que poderia crescer. E aliando estes fundamentos na economia com outros mais apropriados para este momento, o nosso salto será irreversível e muito mais rápido para nos tornarmos uma das maiores economias do mundo em duas décadas. Já somos a oitava economia e considero que seremos a quarta antes de 2020, sem nenhum ufanismo. Isto eu escrevo sem medo de errar, a despeito dos crassos erros na condução econômica do país motivados por uma ortodoxia “burra” que não deu certo em lugar algum do mundo.

Por Atama Moriya, em 26-08-2010.

Voltar Página Principal

Anúncios
Esse post foi publicado em Desafios da Humanidade e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Opte por deixar comentários claros, concisos, compreensíveis e racionais. Evite palavrões, palavras ásperas e críticas/ofensas a outras pessoas. Lembre-se que este blog é muito lido por menores de idade. Por favor, deixe bons exemplos.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s