A IDADE MÉDIA QUE NOS ESPERA – SERÁ?

Mahatma Gandhi: “Sejam vocês mesmos a mudança que querem realizar no mundo”.

São as classes dirigentes que alimentam a incerteza, ingrediente fundamental para manter o poder. No seu último livro, o economista francês Jacques fornece algumas receitas contra a crise.

A reportagem é de Anais Ginori, publicada no jornal La Repubblica, 09-04-2010. – tradução é de Moisés Sbardelotto.

Depois da crise, as crises. “Na próxima década, o mundo atravessará mudanças radicais, só em parte relacionadas à atual situação financeira. Cada um de nós estará ameaçado e deverá encontrar os instrumentos para se salvar”.

No seu último livro (“Sopravvivere alle crisi” [Sobreviver às crises], Ed.Fazi), Jacques Attali profetiza um mundo sempre mais precário e hostil, no qual as classes dirigentes são incapazes de pensar no longo prazo e, ao invés disso, alimentam a incerteza, ingrediente fundamental para manter o poder.

“Devemos nos habituar a nos virar sozinhos, como as vanguardas do passado”, explica o economista, ex-conselheiro de François Mitterrand e primeiro presidente do Banco Europeu para a Reconstrução e o Desenvolvimento. Attali é um dos intelectuais franceses mais ecléticos, capaz de publicar obras sobre Karl Marx ou sobre o amor, e é um escritor em série. Orgulha-se de ter dezenas de livros já prontos na gaveta, assina colunas em muitos jornais, coleciona consultorias e se ocupa da Planet Finance, uma ONG especializada em projetos de microcrédito. Incansável, está sempre correndo. Como o mundo que ele prefigura.

Eis a entrevista.

Quais outras crises nos esperam?

A crise financeira de 2008, de fato, não terminou, apesar das proclamações triunfantes de alguns políticos e banqueiros. Aqueles que os anglo-saxãos definem como “gérmens” de uma retomada são, a meu ver, apenas sinais passageiros. Muitos bancos continuam sendo insolventes, os produtos especulativos mais arriscados se acumulam como e mais do que antes, os retrocessos públicos estão quase fora de controle, o nível da produção e o valor dos patrimônios continuam, em grande parte, inferiores aos anteriores à crise. A causa mais profunda dessa crise é a impossibilidade para o Ocidente de manter o seu nível de vida sem se endividar: sobre isso, não foi iniciada uma reflexão adequada.

O pior ainda está por vir?

Em 2020, a população mundial passará dos sete aos oito bilhões, e a classe média mundial representará cerca da metade dos indivíduos que irão querer se alinhar ao modelo ocidental. Isso irá comportar novos pontos de crítica em nível ecológico. No mesmo período, assistiremos a progressos científicos consideráveis, como as nanotecnologias, as neurociências, as biotecnologias. Toda nova descoberta desencadeará problemas éticos e de possíveis utilizações secundárias para objetivos criminosos ou militares.

Voltando à economia, onde está o fim do túnel?

A conjuntura econômica nos reservará também surpresas ruins. Pessoalmente, temo o retorno da hiperinflação desencadeada pela enorme liquidez criada pelos bancos centrais, a possível explosão da “bolha chinesa” por culpa dos excessivos créditos concedidos e da sobrecapacidade produtiva da República Popular. O sistema público da saúde e da educação, como o conhecemos até agora, se tornará insustentável para os Estados. O nosso nível de vida, sempre mais precário e menos solidário. Quem quiser sobreviver deverá aceitar o fato de não pode esperar mais nada de ninguém. Caminhamos rumo a um mundo que se assemelha à Idade Média.

Não lhe parece exagerado falar de um retorno ao passado remoto?

Como no século XIV, o poder estará concentrado em algumas cidades e em algumas corporações. Já hoje 40 cidades-regiões produzem dois terços da riqueza do mundo e são o lugar onde se realiza 90% das inovações. Na falta de uma verdadeira organização global, se difundirão epidemias e catástrofes naturais climáticas e ecológicas. Haverá sempre mais zonas “fora de controle”, onde se espalharão as organizações criminosas e grupos armados. Os ricos terão que se refugiar em fortalezas modernas.

E tudo isso se deve também à incapacidade das classes dirigentes e ao fracasso do sistema de governança mundial?

Diante de uma crise, qualquer que seja, a maioria dos indivíduos começa negando a realidade. Infelizmente, esse mecanismo também se aplica perfeitamente às empresas e às nações. Até agora, os governos adotaram uma estratégia que faz com que os erros dos banqueiros de ontem e os bônus daqueles de hoje sejam financiados pelos futuros contribuintes.

O senhor presidiu a Comissão para a Libertação do Crescimento, desejada pelo governo Sarkozy, mas as reformas que o senhor havia proposto não foram atendidas. No caso da França, também falta a coragem de preparar o futuro?

O que mais me preocupa é que muitos poderosos gostariam de voltar rapidamente à velha ordem, mesmo sendo ela a que desencadeou a crise financeira. No atual modelo econômico, a empresa passou ao serviço do capital, manipulado por sua vez pelas leis da Bolsa. As coisas estão assim desde 1975, data da invenção das “stock-options” nos EUA.

Não é uma visão muito apocalíptica?

Não devemos nos levar nem pelo otimismo nem pelo pessimismo. Nos últimos 650 milhões de anos, a vida praticamente desapareceu sete vezes da superfície da Terra. Hoje, corremos o risco de que isso aconteça mais uma vez. Mas qualquer ameaça é também uma oportunidade.

Quando se chega a um ponto de ruptura, somos obrigados a reconsiderar o nosso lugar no mundo e a buscar uma ética dos comportamentos completamente nova. Sobreviverá só quem tiver confiança em si mesmo, quem não se resignar. Eu enfrentei crises semelhantes. E por isso também pensei em reunir minhas lições de sobrevivência.

O senhor sugere o dom da ubiquidade: o que significa?

Os meus princípios são sete, para se agir na ordem. Acima de tudo, é preciso começar pelo respeito de si mesmo e, assim, tomar consciência da própria pessoa, e pela intensidade, ou seja, viver plenamente, sabendo projetar-se no longo prazo. Depois, estão a empatia, indispensável para entender os outros, adversários ou potenciais aliados; a resiliência, que nos permite construir as nossas defesas; e a criatividade para transformar as ameaças e os ataques em oportunidade. Se esses cinco princípios não funcionarem, é preciso mudar radicalmente, cultivando a ambiguidade ou até a ubiquidade , aprendendo a ser móvel na própria identidade.

Enfim, o senhor nos dá um pouco de esperança…

A última lição se refere ao pensamento revolucionário. Em condições extremas, também é preciso ousar até a violar as regras do jogo. Nenhum organismo pode viver sem realizar uma revolução em seu interior. Mas tudo sempre deverá partir do indivíduo. Como dizia Mahatma Gandhi: “Sejam vocês mesmos a mudança que querem realizar no mundo”.

O senhor recém publicou o primeiro “hiperlivro”, um volume impresso integrado por contribuições em áudio e vídeo. É esse o futuro da leitura?

Não acredito na morte dos livros tradicionais. Mas é evidente que os jovens crescem aprendendo a ler em uma tela. Para eles, será normal folhear um aparelho eletrônico, assim como nós folheamos um livro. A crise das editoras também é uma crise que só se pode superar com a mudança.

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=31303

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