Minha vida na Cidade Tiradentes – A importância da família para a formação os adolescentes – Relatos da vida real – parte 3, por Rosa de Tiradentes

Hoje é mais um dos dias em que me sinto extremamente cansada. É impressionando a sensação de nadar contra uma maré contrária. Mas percebo como é importante nadar e acreditar que eu vencerei e que muitos já venceram está maré da vida.

Crescer nesta realidade assustadora da periferia de total descaso e perceber que ainda assim, somos meus irmãos e eu privilegiados como a nossa família tão sagrada… tão amada… é agradece a Deus o presente da vida.

Pode parecer estranho ouvir que alguém que tenha tantas limitações seja capaz de agradecer pela vida.

Mas é a mais pura verdade somos abençoados pela família que temos, pelos meus pais, quem são os meus maiores tesouros.

Meu Pai sempre nos ensinou a viver com o que tínhamos sem nos apoderamos do que não era nosso. Mesmo uma simples borracha escolar que aparecia vez ou outra em meio aos nossos materiais,  ele dizia: – Devolva esta borracha, não te pertence, minha filha. Quando puder o pai, compra.

Meus pais eram um tanto enérgicos, cheios de regras, disciplina, limites. Era algo que deixávamo-nos loucos, porque pegavam no nosso pé!

Claro, que nem tudo eram flores, tinham bastantes espinhos também no dia a dia.

Não foram nem uma…nem duas…e nem dez vezes…que eu via meu pai sair a noitinha, à procura dos meus irmãos, pela ruas da Cidade Tiradentes ou locais próximos. Está era a maneira dele se certificar que meus irmãos, não estavam envolvidos com coisas erradas, e que não os encontraria morto em uma esquina no bairro.

Chegava até a ser cômico, ver meus irmãos bem nervosos voltarem para casa com o meu pai a tiracolo e irem direto para a cama (claro, que eu nunca falei uma coisa para eles que muito com a situação). A verdade é que era lindo ver o respeito que eles tinham com o meu pai e a obediência que todos tínhamos com minha mãe até certo ponto, porque minha mãe sempre foi mole conosco. Ela nos educava dentro das regras do meu pai, então era natural que tivéssemos mais obediência para com o meu Pai.

Apesar das dificuldades financeiras da família, eu sempre me senti afortunada pelo lar que tinha. Um lar cheio de divergências, afinal éramos 6 pessoas e ainda depois passamos para oito vivendo num mesmo espaço minúsculo de três cômodos. Pessoas com personalidade bem diferentes… vontades diferentes… enfim, éramos todos tão diferentes como os dedos das mãos, mas com algo em comum: o Amor dos meus pais. Todo o seu zelo, dedicação, suas renuncias, porque meus pais renunciaram alguns desejos, projetos pessoais, mas nunca por sacrifício e sim, por amor a mim e aos meus irmãos.

Às vezes fazíamos alguns passeios para casa de familiares, no interior de São Paulo ou para o litoral, para represa ( meu pai adora pescar!), isto quando tínhamos um dinheirinho sobrando. Mas quando não tínhamos ficávamos todos em casa assistindo televisão, algum filme, desenho, até o Chaves assistíamos todos juntos, meus irmãos, pai, mãe e eu. Não importava onde, nem o que estivéssemos fazendo, estávamos sempre juntos como uma verdadeira família.

Estes foram alguns dos programas de finais de semanas programados pelos meus pais. Era importante reunir todos os filhos e terem a certeza de que estávamos longe das seduções que a periferia proporciona, como o envolvimento com drogas.

Lembro que durante um almoço alguns depois na casa dos meus pais, conversamos meus irmãos e eu, sobre os conhecidos que estavam presos, outros que estavam mortos, e falávamos sobre a raridade que era encontrar uma família que não tivesse tido uma destas perdas. Então nossa família é uma raridade porque, cada um de nós tomou um rumo para a sua vida, cheio de altos e baixos, como a vida de quaisquer pessoas, mas estamos ali, unidos por um laço de amor.

Eu me lembro quando meus irmãos falaram que eles tiveram muitas “oportunidades” de entrarem na vida do trafico e do crime, e chegaram por um breve momento a serem seduzidos, pela ilusão de uma vida melhor e menos dura. Mas quando isto aconteceu se lembraram dos meus pais, de toda dedicação, carinho e amor, de tudo que eles faziam por nós, e não tiveram coragem de dar este desgosto para eles. Que num primeiro momento, não caíram pelos meus pais, que eram o nosso pilar de sustentação. Mas que hoje não o afazem por eles mesmos, porque sabem que preço a ser pago é muito alto.

Hoje eu olho os meus pais e os vejo as vezes tristonhos, chateados, um ar de frustração, porque não puderem nos proporcionar, uma vida menos dura, um lar com mais conforto, e não realizaram alguns sonhos pessoais de conquista materiais, chegando a se sentirem derrotados, por que não acumularam bens na vida e ainda dependem dos ganhos salariais modestos do meu Pai para sustentarem ainda dois irmãos menores ainda. Ainda bem que minha mãe recebe uma ajuda do salário família que complementa a renda familiar.

Pergunto-me se eles sabem que acumularam tesouros ainda mais valiosos no céu!

O que é maravilhoso saber, é que a minha família é sagrada e rara nos tempos atuais; eu sei que existem outras por aí, que passaram pelas mesmas dificuldades e, no entanto estão aí, unidas como uma verdadeira família, matando um leão por dia literalmente. Entretanto sobrevivendo com toda dignidade possível, acumulando tesouros, que na verdade são virtudes valiosas para o ser.

Ah, antes que me esqueça.

A minha eterna gratidão aos meus pais que me deram muito mais do que a vida poderia ter lhes concedido.

Eu os amo meus queridos pais!

Mas depois de tanta “rasgação de seda” e uma declaração que eu não me canso em fazer, preciso confessar que a única razão para falar a respeito da sagrada família, de forma tão delicada, é por que, me questiono sempre: do porque perdemos tantas vidas jovens para este mundo de sedutoras promessas e ilusões, que acabam na mais profunda desilusão? E chego a pensar que nossos conceitos de vidas estão defasados, que os nossos valores estão perdidos.

E que a família que nossos antepassados pregavam como sagrada, hoje é uma instituição falida. A qual necessita recuperar o mais urgente possível se quisermos sobreviver e viver neste mundo.

Rosa de Tiradentes

Minha vida na Cidade Tiradentes – parte 1

Minha vida na Cidade Tiradentes – parte 2

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