Guerra de classes, por Rick Wolff – rico versus pobre

“Há uma guerra de classe, com certeza, mas é a minha classe, a classe rica, que está a fazer a guerra, e estamos vencendo.” – Warren Buffet, NYT-26/11/2006

Os salários reais dos trabalhadores americanos (salários monetários ajustados aos preços que os trabalhadores realmente pagam) não têm aumentado desde os anos 70. Dados recentes do Gabinete de Estatísticas do Trabalho confirmam que os salários reais continuaram a estagnar durante 2009. Durante este mesmo período de 30 anos, a produtividade da força de trabalho continuou a aumentar: o trabalhador médio tem vindo sempre a produzir mais e o empregador médio a vender mais. Portanto, os rendimentos dos capitalistas aumentaram em relação aos salários dos trabalhadores.

Os capitalistas utilizaram esses rendimentos crescentes para intensificar a guerra de classe contra os trabalhadores americanos.

Em primeiro lugar, os capitalistas enfraqueceram os seus adversários emprestando uma parte dos seus enormes rendimentos aos trabalhadores americanos, sob a forma de “empréstimos para consumo” a taxas altas.

Com salários sem aumentos, os trabalhadores apenas puderam financiar as suas casas, a escola dos filhos, os tratamentos médicos, etc. de que precisavam, através de empréstimos ou pondo a trabalhar mais membros da família, nomeadamente as mulheres.

Esta evolução que beneficiava os capitalistas provocou graves tensões interpessoais nos lares dos trabalhadores que se debatiam com dívidas acumuladas. Durante as últimas décadas, os trabalhadores concentraram-se na solução desses problemas; gastaram menos tempo e energia nos assuntos cívicos, nas atividades sindicais, nos problemas da escola dos seus filhos, etc. Ressentiram-se amargamente com tudo o que o governo pudesse fazer como aumentos de impostos, que tornassem ainda mais difícil essa solução. Como escreveu um conhecido comentador sobre o atual individualismo dos trabalhadores, eles passaram a jogar “bowling sozinhos”.

Em segundo lugar, os capitalistas utilizaram os seus novos rendimentos para financiar a re-localização da produção e de outras instalações fora dos EUA e (2) a automatização da produção. Através da globalização, as corporações ameaçaram empregados e sindicatos de que o aumento de salários ou de outras melhorias no trabalho podiam traduzir-se na perda de emprego. Através da automatização, passaram a ser precisos menos trabalhadores e o seu poder negocial com os capitalistas enfraqueceu.

Em terceiro lugar, os conselhos de direção capitalistas utilizaram outra parte das novas receitas para aumentar os salários e os bônus dos gestores de topo (incluindo-se a si próprios), ou seja, das pessoas que contribuem com somas significativas para os políticos que são a favor de leis e regulamentações conservadoras, viradas para os negócios.

Assim, as corporações e os gestores de topo aumentaram a dependência dos políticos da sua generosidade coordenada.

Simultaneamente, uma grande parte dos trabalhadores distanciou-se dos assuntos políticos. A política americana tornou-se cada vez mais um desporto de espectadores extremamente dispendioso. A política oficial virou-se para a direita mesmo quando a opinião popular de massas, quando sondada, apontava claramente noutra direção. Os políticos perceberam que as suas carreiras não conseguiriam sobreviver perante o fluxo de dinheiro com que as corporações capitalistas e os abastados gestores de topo inundavam as campanhas contra eles. Reagiram ao fato de que os trabalhadores cada vez percebiam menos de política, nomeadamente de finanças, e cada vez participava menos. Foram ultrapassados pelos seus opositores de classe e perderam a confiança na capacidade ou vontade do Partido Democrata e dos sindicatos em promover os seus interesses de classe.

E assim, embora as maiorias defendam o fim do envolvimento no Iraque, mantêm-se lá grandes forças americanas. A maioria agora opõe-se à ocupação do Afeganistão, mas a administração prossegue.

A maioria é a favor do apoio do governo ao comum das pessoas, juntamente com a ajuda aos bancos, às companhias de seguros, etc. nesta crise econômica, mas continuamos sem uma solução real para o desastre das penhoras e sem um programa público de emprego para os milhões despedidos pelos empregadores privados. A maioria é a favor do seguro médico para todos e de cuidados médicos de baixo custo , mas a legislação que vai aparecendo está muito longe disso. As maiorias são a favor de estritas limitações e controles sobre o financiamento privado das campanhas políticas, mas o que acontece é o contrário.

Na guerra de classe, os capitalistas desviam a ira e a amargura dos seus adversários com receio de que esses sentimentos mobilizem os trabalhadores.

Enormes despesas em publicidade, grupos de analistas, meios de comunicação, celebridades porta-vozes, e acadêmicos conseguem fazer isso responsabilizando o governo, e não os capitalistas, pelas dificuldades dos trabalhadores. Reparem na atual campanha, financiada principalmente pelas corporações de seguros médicos privados, contra a extensão da cobertura pública a milhões de cidadãos sem seguro médico. Demoniza essa extensão como a “imposição do socialismo”. A campanha explora os receios dos cidadãos em relação ao que lhes irá custar mais um programa do governo. Contribui para que as pessoas “esqueçam” (se é que sabiam) que em 2008 cerca de 87,4 milhões de cidadãos americanos tinham e apoiavam fortemente o seguro médico público (a Medicare, a Medicaid e o sistema Veteran Affairs das forças armadas). Omite qualquer referência a que, entre 2004 e 2008, a dedução duma família média para os serviços médicos dentro destas redes, na maior parte dos seguros médicos privados proporcionados por empregadores, aumentou de 1 000 para 1 850 dólares . Ao suprimir o conhecimento dos crescentes custos privados e ao exagerar, simultaneamente, os riscos do aumento de custos públicos, a campanha dos seguradores privados lança o alarme nos cidadãos para que estes se oponham ao alargamento do seguro do governo. Pelas mesmas razões, pouco americanos se apercebem de que o sistema médico privado americano é muito mais caro do que os sistemas públicos de muitos outros países (que também prestam melhores cuidados de saúde); a Organização Mundial de Saúde coloca os EUA em 37º lugar quanto à qualidade do seu sistema de saúde (a França ocupa o nº 1).

Mas esta guerra de classe – centrada no desvio de rendimentos, riqueza e poder dos trabalhadores para os capitalistas – não consegue tirar aos trabalhadores a sua arma mais poderosa. Os trabalhadores produzem e entregam aos seus adversários os recursos que depois são utilizados contra eles – aquela diferença entre a sua produtividade para os empregadores e os seus salários dos empregadores. O dilema do capitalismo é esta contradição: os trabalhadores que os capitalistas contratam, exploram e tentam dominar são os mesmos trabalhadores de quem eles dependem para poderem contratar, explorar e dominar.

A guerra de classes provém de uma estrutura profundamente impregnada de capitalismo que lança capitalistas contra trabalhadores. O fim da subida dos salários reais, nos anos 70, aumentou os recursos adicionais nas mãos dos capitalistas permitindo que estes intensificassem a guerra de classes enquanto que esta enfraquecia os trabalhadores. Mas a guerra de classes não foi apenas uma conseqüência, também foi, desde o início, a causa de os salários reais deixarem de aumentar. O capitalismo leva sempre a que os empregadores procurem salários mais baixos, ou seja, leva à guerra de classes para assegurar salários mais baixos. Mas a falta de mão-de-obra nos EUA impediu durante muito tempo que os empregadores o conseguissem (mesmo quando utilizaram maciças vagas de imigração, automatização e outras armas de guerra de classes). Quando, por volta da década de 70, essas condições mudaram finalmente (a automatização e a globalização reduziram a procura de mão-de-obra enquanto que as mulheres e nova imigração aumentavam a oferta de trabalho), os empregadores deixaram de aumentar os salários reais com todos os resultados acima referidos.

Tanto em épocas de prosperidade como em épocas de crise, o capitalismo precisa da guerra de classe. Só uma mudança de sistema pode acabar com isso. Os capitalistas têm poucas razões para mudar o sistema. Como sempre, são os trabalhadores que se mantêm em posição de provocar a rotura. Entretanto, sofrem as conseqüências de não o fazerem.

[*] Professor de Economia na Universidade de Massachusetts – Amherst. Autor de muitos livros e artigos , incluíndo (c/ Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (c/ Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006).   O seu novo livro acerca da crise actual é Capitalism Hits the Fan .

O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/wolff160909.html . Tradução de Margarida Ferreira.

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