Brasil, País do Futuro (livro escrito em 1941) por Stefan Zweig – a propósito da discussão do pré-sal

Em 1941, o escritor alemão Stefan Zweig, depois de visita ao Brasil, escreveu uma obra de título bastante citado mas pouco difundida: Brasil, país do futuro.

Nessa obra, Zweig afirma que o Brasil, que possuía “uma riqueza imensa sob este solo opulento e intacto, da qual apenas a milésima parte foi aproveitada”, estava “destinado a ser um dos mais importantes fatores do desenvolvimento futuro do mundo”, e que, no contexto de barbárie que se vivia na época, a existência do Brasil significava uma das “melhores esperanças de uma futura civilização e pacificação do nosso mundo devastado pelo ódio e pela loucura” (1981, p. 10-18).

Leiam este trecho do livro de Stefan Zweig, uma ótima leitura:

“O Brasil, cuja superfície é, sem comparação, a maior da América do Sul, e tem uma área superior até à dos Estados Unidos da América do Norte, é hoje uma das mais importantes, talvez a mais importante, reserva do mundo para o futuro. Existe nele imensa riqueza de solo, que ainda não conheceu cultivo, e no seu subsolo há minérios e tesouros que absolutamente não são explorados e quase nem estão descobertos. Há nele possibilidade de viver um número de habitantes que um fantasista talvez calcule melhor do que um estatístico. Já a diversidade de resultados dos cálculos feitos para saber se este país, que hoje conta cinqüenta milhões de habitantes, poderia comportar quinhentos, setecentos ou novecentos milhões, sem que a densidade fosse superior à normal, fornece uma base para se avaliar o que o Brasil poderia ser daqui a um século, talvez já daqui a alguns decênios, no nosso cosmo. Subscreve-se de bom grado a breve afirmativa de James Bryce: “Nenhum grande país do mundo que pertença a uma raça européia possui semelhante abundância de solo para o desenvolvimento da existência humana e de uma indústria produtiva”.

Com a forma de uma harpa gigantesca, desenhando, de maneira curiosa, com sua linha de contorno exatamente o contorno da América do Sul inteira, este país possui terras montanhosas, litoral, planícies, florestas, sistemas fluviais e é fértil em quase todas as suas zonas. Seu clima reúne todas as transições do tropical para o subtropical e para o temperado; sua atmosfera é úmida aqui e seca acolá, marítima na periferia e já alpina no interior; zonas pouco chuvosas alternam-se com outras muito chuvosas, e, com isso, oferecem-se possibilidades para a mais variada vegetação.

O Brasil possui os mais caudalosos rios do mundo ou lhes fornece águas, o Amazonas e o Rio da Prata; suas montanhas lembram, em algumas regiões, os Alpes e se elevam, como o Itatiaia, que tem três mil metros de altura e é a mais alta montanha do Brasil, a regiões nevosas. Suas grandes quedas d’água, a de Iguassú e a das Sete-Quedas, suplantam em força a do Niágara, apenas incomparavelmente mais célebre, e estão entre as maiores reservas hidráulicas do mundo; suas cidades como o Rio de Janeiro e São Paulo, ainda em pleno crescimento fantástico, já podem rivalizar com as européias em luxo e beleza. Todas as formas de paisagens do Brasil variam ante o olhar, sempre de novo fascinado; a diversidade de sua fauna e flora há séculos fornece aos estudiosos sempre novas surpresas: só a lista de suas espécies de aves enche volumes inteiros de catálogos, e toda nova expedição descobre centenas de outras espécies. Só o futuro desvendará o que de possibilidades latentes, de minerais, existe no solo.

Só uma coisa é certa, é que os maiores depósitos de ferro do mundo, ainda intactos e só eles já suficientes para abastecer durante séculos todo o globo terrestre, aqui se acham; no aspecto geológico dificilmente falta a este possante país uma espécie de minério, de rocha, ou espécie vegetal. Por muito que nos últimos anos se tenha feito por uma primeira inspeção geral para verificar o que o Brasil possui, a verdadeira verificação e avaliação aqui estão ainda no começo e até antes do começo decisivo. Por isso se tem de repetir sempre que este enorme país, graças ao fato de não estar gasto e graças à sua vastidão, representa hoje para o globo terrestre, em muitas partes, já fatigado e esgotado, umas das maiores esperanças e talvez até a mais justificada.

A primeira impressão que dá este país é a duma opulência perturbadora. Tudo é intenso, o sol, a luz, as cores. O azul do céu é aqui mais vivo, o verde é mais carregado, a terra é compacta e vermelha; nenhum pintor poderá encontrar em sua paleta tons de cor mais deslumbrantes, mais irisados do que os que aqui têm as aves em sua plumagem, as borboletas em suas asas. A natureza alcança sempre o seu superlativo: nas trovoadas, que com estrondosos relâmpagos rasgam o firmamento; nas chuvas, que se precipitam como catadupas, e na vegetação, que em alguns meses pulula, formando intenso matagal verde. Mas também o solo intacto desde séculos e milênios responde aqui a todo apelo com uma energia quase incrível. Se nos lembramos do trabalho, do esforço, da habilidade, da tenacidade a que na Europa temos de recorrer para conseguir, dum jardim, ou dum agro, flores ou frutos, ficamos surpresos de encontrar aqui uma vegetação que, ao contrário, temos que conter para que se não desenvolva demasiado impetuosa, demasiado violentamente. Aqui não temos que favorecer o crescimento e sim lutar contra ele, a fim de que em sua bárbara impetuosidade não sufoque o que é plantado pela mão do homem. Espontaneamente e sem trato crescem aqui os vegetais que dão à maior parte da população o alimento, a banana, a manga, a mandioca, o abacaxi. E toda nova planta frutífera, todo novo vegetal, trazido doutro continente para aqui, imediatamente se adapta a este húmus virgem.

A impetuosidade com que esta terra responde a todas experiências que nela se tentam, de maneira paradoxal, várias vezes em sua história econômica, até se transformou em perigo. Aqui se originaram com seqüência quase regular crises de superprodução, unicamente porque tudo corria demasiado rápido e fácil; o Brasil, logo que começava a produzir alguma coisa, tinha sempre de conter-se para não produzir demais. O lançamento do café ao mar ou ao fogo no século vinte é o último exemplo disso. Por isso a história econômica do Brasil está cheia de mudanças surpreendentes, e talvez até mais dramáticas do que as de sua história política. Via de regra, o caráter econômico dum país é, desde o começo, inequivocamente determinado; cada país como que toca um único instrumento e a euritmia não se altera essencialmente no correr dos séculos. Este é um país de jardins, aquele tira sua riqueza de madeiras ou de minérios, aqueloutro a obtém da criação de gado. A linha da produção pode oscilar em diferentes ascensões e descidas, mas de um modo geral a direção permanece a mesma.

O Brasil, ao contrário, é o país das constantes transformações, e das súbitas mudanças. Verdadeiramente cada século teve aqui característica econômica diversa e, no desenvolver-se do drama, cada ato tem o nome de um produto: açúcar, ouro, café, borracha, algodão ou madeira. Em cada século, propriamente em cada meio século, o Brasil apresentou sempre outra nova surpresa de sua opulência.”

Anúncios
Esse post foi publicado em Brasil-Líder do Milênio e marcado , , . Guardar link permanente.

Opte por deixar comentários claros, concisos, compreensíveis e racionais. Evite palavrões, palavras ásperas e críticas/ofensas a outras pessoas. Lembre-se que este blog é muito lido por menores de idade. Por favor, deixe bons exemplos.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s