Minha vida na Cidade Tiradentes – parte II – relatos da vida real

Apesar da minha condição de “poucos estudos”, sempre tive muito gosto pela leitura e meditava muito sobre as circunstâncias da minha vida. Antes de mais nada, preciso confessar que aos 14/15 anos, sentia uma enorme revolta da vida, chegava a pensar realmente que não fazia o menor sentido viver de forma tão limitada,onde minhas escolhas, como a de muitos adolescentes amigos, limitava-me em seguir a vida, de luta e sofrimento do meus pais para sobreviverem com o mínimo do mínimo possível, ou então a escolha seria a vida sedutora do trafico e do crime. Uma escolha infeliz, mas que muitos chefes de família optam para acabar com os sofrimentos da sua própria família. Quem não sonha em prover os filhos com o bom e o melhor que a sociedade pode proporcionar?

Mas, agradeço muito pela perseverança de meu pai e tantos outros pais que mesmo tentados e provocados, não se seduziram e mantiveram-se íntegros em suas vidas, embora pobres e com pouquíssima cultura, honestos.

Falo de além de duas décadas passadas quando aqui no bairro tudo era muito difícil, a bandidagem tomava conta, como até os dias atuais, e tinha-se que ser amigo dos “bandidos” para ser protegido, senão o bicho pegava feio. Até hoje não mudou muito, tem-se que se conviver com os “perigosos” e as milícias. Difícil saber qual o pior.

Eu escolhi observar e aprender a escolher o que não queria para a minha vida e eu não queria nenhuma das opções de vida. Estes sentimentos de revolta era algo comum entre os adolescentes, o que diferencia um do outros eram as escolhas e o rumo que cada um seguia.

Eu tinha como companheira fiel um abacateiro, era onde eu sentava horas com uma jarra da água e um livro e fica observado tudo a minha volta, os animais, as plantas, o céu e o vai e vêm das pessoas, as expressões dos seus rostos, pareciam tão comuns; os mais velhos tinham os rostos marcados pelo cansaço, o desgaste de uma vida e ao mesmo tempo, a expressão do respeito e orgulho de ser um vencedor, afinal, são sobreviventes do descaso, e conseguiam estar em pé pontualmente as 04:30hrs da manhã para enfrentar uma condução desoladora e trazer o sustento para a casa, com o seu suor, e sorrirem com prazer em encontrar alguém conhecido para falar sobre as novidades, as aquisições, as últimas conquistas, como uma geladeira (para a mulher), uma lavadora…etc. (o que era bem aceito pela mulherada, afinal ninguém quer uma geladeira com as portas amarradas; lavar roupa então no tanque de concreto era um pesadelo! Claro, que a mulherada aceitava o agrado com gosto!). Tudo comprado a prestação, a sumir de vista, um carrinho velho; materiais para terminar de construir aquele cômodo inacabado.

Mas tudo pago certinho, afinal tudo que temos é o nome, então tem que zelar.

Em contra partida via os adolescentes, com a mesma expressão que a minha, era como olhar no espelho, totalmente perdidos sem rumo. Uns que se julgavam espertos “pra caramba”, e se achavam acima de qualquer lei, cometendo vários tipos de crimes, e ao mesmo tempo sentindo-se justiceiros, porque, pagam na mesma moeda tudo àquilo que lhe fora tirado por “direito”.

A grande verdade é que temos a sensação de sermos lesados o tempo todo, parece que fomos roubados no direito da escolha por nossas vidas. Isto enquanto outros como eu se limitavam apenas a querer e sonhar com uma vida, em que fossemos os únicos responsáveis pelas escolhas e o caminho que escolhemos seguir.

E pensam que é fácil? Não, é não! Só quem vive esta experiência sabe o quanto é difícil não se deixar perder pelo caminho.

Mas eu sempre me questionei falava para Deus: – Cara, como pode tamanha perfeição nas plantas, nos animais, no céu e, aqui, este inferno sem fim? Como pode uns terem tanto, enquanto outros rezam para chegar no fim do dia e ter algo para comer?! Não é possível uma coisa desta!

Eu nem preciso dizer que eu não acreditava em Deus… uma blasfêmia como dizem! Mas se ele era Pai, onde estava para permitir tanta desigualdade e dor?

Ai queria morrer quando alguém via me dizer: – Não se preocupe, Deus proverá!

Eu falava: – É mesmo fica aí então esperando Deus prover, enquanto isto eu vou trabalhar para ter o que comer no dia seguinte. Passei a contar apenas com o que eu podia fazer, e o que podia fazer é trabalhar, para auxiliar nas despesas de casa e continuar estudando. Infelizmente é comum você ter adolescentes que não concluíram sequer o ensino fundamental II; uns porque tiveram que trabalhar e outros por que encontraram uma maneira fácil de viver sem muito esforço.

Como eu disse transporte era algo precário, e devido está precariedade foram surgindo os transportes alternativos, as famosas lotações. Um meio de transporte bem alternativo e clandestino, aquilo parecia uma máfia. Tinham suas próprias leis e regras de circulação, e empregabilidade. Foi uma tabua de salvação para muitos pais de famílias, para alguns adolescentes era o seu primeiro emprego. Ganhava-se bem. Trabalhava-se das 04:00 ás 24:00 hrs para ganhar R$-20,00 por dia, que no mês dava uns R$-600,00. Isto para os cobradores, eu sei porque trabalhei na lotação para pagar um curso de informática, que fazia aos sábados de manhã. Eu revezava com meus irmãos, quando tinha aula, um deles assumia meu posto, assim consegui conciliar o trabalho com os estudos. O motorista ganhava um pouquinho mais, creio que chegava ao mês com uns R$ 1.200,00 a R$- 1.500,00. Dificilmente era o dono do ponto ou do veiculo que trabalhava, existia um aluguel para estas pessoas trabalharem e adquirirem o direito de sonhar novamente uma condição de vida melhor, para os seus e a si mesmo.

Mas tinha um lado bem negativo desta estória, eram as leis criadas por alguns. Existiram sempre brigas, intrigas de pontos rivais, ou da concorrência, na maioria das vezes acaba em morte, alguns acertos de conta.

Quase perdi meus irmãos assim, imaginem o desespero do meu pai!

Tenho um amigo muitíssimo querido, Léo, que nós perdermos por causa disto, num desces acertos de conta. Eu digo perdemos, porque foi uma perda muito sentida para todos que o conhecemos. O Léo era um menino de ouro e os pais dele nunca cansam de repetir isto. Menino estudioso, trabalhador, inteligente, esforçado sempre ajudou na casa dele. Ele se destacava na turma, onde estivesse era o palhaço do grupo, arrancava gargalhadas de todos,  um grande amigo.

Foi convidado a trabalhar na lotação de um conhecido dele como cobrador, só pra quebrar um galho, pois ele estava sem alguém para trabalhar. O Léo, sempre solicito aceitou, de boa. Em uma das viagens foram abordados por um grupinho, que queria acertar as contas com o motorista da lotação.

O grupo pediu para os passageiros descerem do veiculo e começaram a atirar e mataram o motorista e o Léo levou três tiros. Foi uma dor tremenda perdê-lo assim de forma tão brutal, sua mãe depois disto ficou muito doente e até hoje tem problemas de saúde, seus irmãos mais novos se enveredaram para o crime e sua irmã, minha querida amiga, ainda bem, escapou e é uma ótima mãe de família. Todos nós sentimos a saudades do sorriso e alegria contagiante que só ele tinha.

Nossa, dançávamos, riamos muito! Saudades!

Eu disse não é fácil sobreviver neste sub-mundo, a margem de uma sociedade que se julga vitima de monstros, sem saber que estes monstros foram crianças abandonadas a sua própria sorte na vida, sem muitas escolhas.

De quem é a culpa? Não interessa! Eu só sei que sou responsável por cada criança que se perde para este mundo desumano.

Por Rosa de Tiradentes

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Uma resposta para Minha vida na Cidade Tiradentes – parte II – relatos da vida real

  1. paulo heidi gusucuna disse:

    AQUELES QUE DESEJAM SER SABIOS, DEVEM BUSCAR CONHECER A SI MESMO, BUSCAR ESSE CONHECIMENTO E BUSCAR CONHECER A DEUS E SEUS PROPOSITOS PARA A HUMANIDADE. SO ASSIM OS HOMENS VIVERAO EM PAZ E SOLIDARIOS UNS PARA COM OS OUTROS. FOI ASSIM QUE EU APRENDI DE JESUS, QUE EU CONSIDERO MEU MELHOR AMIGO, MEU SALVADOR E MEU UNICO SENHOR. SO ELE DA SENTIDO A MINHA VIDA.

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