Porque a economia dos EUA ainda deve bater no fundo do poço

Comentários rápidos: A crise econômica tem origem e está localizada no sistema econômico americano. Claro que respinga para todos os países, mas muito mais para aqueles que estão diretamente ligados à essa economia em maior grau. O reflexo individualmente aos países não é igual, e jamais será nas mesmas proporções.

Assim como o crescimento econômico nunca foi igual para todos os países nos ultimos 50 anos, a recessão e a crise também terá proporções diferentes e bem menores que a americana em todo mundo.

A popularidade de Obama oscila para menos, afinal a euforia já acabou e o desemprego continua a rondar os americanos. Na California a taxa de desemprego já ultrapassa a marca de dois dígitos e não há perspectivas imediatas de melhoras.

De uma forma geral a renda salarial diminuiu nos EUA, assim como o consumo. Medira a saude financeira pelos resultados das bolsas pode ser falso, afinal Bancos menores continuam a quebrar e a confiança do consumidor vai diminuindo.

Se os operadores financeiros estiverem certos na visão de que os níveis atingidos antes da crise jamais serão repetidos novamente tão breve, identifica então uma enorme bolha na economia e na valorização de ativos, bolha esta hoje sem dono já que ninguem quer assumir que perdeu! Entretanto, não existe sistema econômico 100% feliz onde os 100% ganham. Isto é impossível. Se alguem ganhou muito antes da crise, alguem perdeu muito após. Simples assim.

Mas vamos aos comentários de Mike, que são elucidativos.

AM.

A continuar no vazio, por Mike Whitney

Há uma grande diferença entre uma recessão impulsionada pelos stocks e uma recessão impulsionada pelo crédito. Uma recessão pelos stocks é provocada por uma disparidade entre oferta e procura. Ela resulta da super-capacidade e da sub-utilização da qual só se pode sair quando os stocks são reduzidos e a procura acrescida. As recessões impulsionadas pelo crédito são uma história completamente diferente. Elas tipicamente perduram o dobro do tempo e podem precipitar crises financeiras.


A atual recessão é uma severa quebra de crédito da magnitude da era da Depressão. O sistema financeiro efetivamente entrou em colapso. O sistema de crédito de origem (titularização) está congelado, o sistema bancário é disfuncional e está insolvente e os gastos do consumidor afundaram. A concessão de facilidades de muitos trilhões (trillion) de dólares do Fed e os seus estímulos monetários impediram o sistema financeiro de pulverização até à paralisação, mas os problemas não foram resolvidos. O presidente do Fed, Ben Bernanke, preferiu evitar as decisões duras e manteve os preços dos ativos tóxicos artificialmente altos com a ajuda de um escudo de liquidez de US$12,8 trilhões. Eis porque as ações animaram-se nos últimos quatro meses enquanto as condições na economia real continuavam a deteriorar-se. Bernanke está a utilizar todas as ferramentas à disposição do Fed para impedir a liquidação do mercado e impedir que a montanha de dívida que foi acumulada desde há décadas através da expansão do crédito seja purgada do sistema.


A agitação no mercado de ações tornou mais difícil ver que a economia está a redefinir-se a uma taxa de atividade econômica mais baixa. A deflação está a começar em todos os sectores. Os preços da habitação estão a liderar o recuo, caindo 18,1 por cento de ano para ano segundo o novo relatório Case-Schiller. A deterioração da situação líquida das casas está a forçar os proprietários a cortar nos gastos, o que enfraquece a procura e desencadeia mais desempregos coletivos. É um círculo vicioso que acaba em crescimento mais lento.

Além disso, o sistema bancário está arruinado. Os US$700 bilhões do programa TARP não foram utilizados para comprar ativos tóxicos e sim para comprar posições acionárias nos bancos e no salvamento do gigante dos seguros, a AIG. Bernanke sabe que um sistema bancário coxo será uma drenagem constante de recursos públicos, mas recusa-se a nacionalizar os bancos ou a reestruturar a sua dívida. Ao invés disso, ele está a expandir o balanço do Fed em US$1,2 trilhões e disparou uma corrida no mercado de ações. A corrida de Bernanke ao mercado deprimido levantou os títulos financeiros estagnados e gerou o capital que os bancos precisam para sobreviver à degradação dos seus maus ativos. O antigo chefe do Fed, Alan Greenspan (não intencionalmente) clarificou este ponto num editorial no Financial Times:

“A ascensão dos preços globais das ações desde o princípio de Março a meados de Junho é certamente a causa primária da surpreendente recuperação positiva no ambiente econômico. Os US$12 trilhões de valor recém criado das ações corporativas acrescentou-se significativamente ao amortecedor de capital que apóia a dívida emitida pelas companhias financeiras e não financeiras… Companhias anteriormente carentes de capital foram capazes de levantar-se através consideráveis empréstimos e vendas de ações nos últimos meses. Os temores do mercado quanto à insolvência dos bancos, particularmente, foram aliviados.

“Os mercados globais de ações têm-se reanimado até agora e tão rapidamente este ano que é difícil imaginar poderem avançar mais a algo próximo do seu ritmo recente. Mas o que acontece se, após uma correção, eles continuarem inexoravelmente para cima? Isso reforçaria o balanço global com grandes quantias de novo valor em ações e abasteceria os bancos com novo capital que lhes permitiria intensificar a concessão de empréstimos. (Alan Greenspan, “Inflation, The real threat to a sustained recovery”, Financial Times )

Bernanke estava a pensar claramente de acordo com as mesmas linhas que Greenspan quando decidiu empurrar os traders de volta ao mercado com os seus generosos programas de liquidez e facilidades quantitativas (quantitative easing, QE). Ele provavelmente percebeu que o apoio político para mais salvamentos havia-se desvanecido e que “grandes quantias de nova liquidez” (nas palavras de Greenspan) seriam necessárias para impedir os bancos de não cumprirem suas responsabilidades. Quaisquer que possam ter sido os motivos, o estímulo de Bernanke turbinou o mercado de ações enquanto a economia real continua a cambalear.

Jordan Irving, que colabora na administração de mais de US$110 bilhões no Delaware Investments, em Filadélfia, disse à Bloomberg News: “Isto foi uma corrida induzida pelo governo. Precisamos ver alguns sinais positivos reais virem da procura interna, ao contrário da procura relacionada com o governo, e não só daí”.

Até agora, a intervenção do Fed nos mercados não afastou a ameaça colocada pelos ativos tóxicos, um problema que só pode piorar ao longo do tempo. Eis porque o Bank of International Settlement (BIS) emitiu um relatório na semana passada a advertir dos “perigos” de não agarrar a questão pelos cornos. Eis um excerto do relatório, tal como apresentado em The Guardian:

“… Apesar de meses de ação coordenada em todo o globo para estabilizar o sistema bancário, perigos ocultos ainda espreitam as instituições financeiras do mundo segundo o Bank of International Settlements com sede na Basiléia.

“No geral, os governos podem não ter atuado com rapidez suficiente para remover o problema dos ativos dos balanços dos bancos chave, diz o BIS no seu relatório anual. Ao mesmo tempo, as garantias do governo e o seguro de ativo expuseram os contribuintes a perdas potencialmente grandes.”

“Como uma das poucas instituições a tocar sistematicamente o alarme acerca da acumulação de ativos financeiros de risco e de bancos sub-capitalizados na aceleração para a crise do crédito, a avaliação do BIS influenciará os governos. Ele diz: ‘A falta de progresso ameaça prolongar a crise e atrasar a recuperação porque um sistema financeiro disfuncional reduz a capacidade de ações monetárias e fiscais estimularem a economia’ “.

O problema dos ativos tóxicos é mais uma vez agravado por uns estimados US$2 trilhões de perdas adicionais devidas ao não cumprimento de hipotecas residenciais, empréstimos para o imobiliário comercial, empréstimos com cartões de crédito e empréstimos para automóveis. É a dupla maldição: uma fétida carteira de empréstimos não cumpridos e lixo de derivativos apoiados por hipotecas. Ao mesmo tempo, o consumo pessoal caiu a pique e os sinais de contração econômica são visíveis por toda a parte, desde o inchaço de pessoas sem casa às longas filas nos gabinetes de desemprego, aos cofres estaduais vazios, aos carrinhos de supermercado semi-cheios. O desemprego está a aumentar a 600 mil postos de trabalho por mês, a confiança do consumidor bate recordes de baixa, as vendas de liquidação caíram drasticamente e a habitação continua o seu mergulho. Os dados são claro; não há brotos verdes ou raio de esperança.

A melhor fotografia instantânea da economia apareceu no Livro Bege do Fed, o qual foi divulgado há duas semanas, mas mal foi noticiado pelos media financeiros. O relatório faz uma avaliação cândida de uma economia que está em agonia profunda. Eis um excerto:

“Relatórios dos doze Bancos Distritais do Federal Reserve indicam que as condições econômicas permanecem fracas ou a deteriorar-se ainda mais durante o período de meados de Abril até Maio… A atividade manufatureira declinou ou permaneceu num nível baixo na maior parte dos Distritos… A procura por serviços não financeiros contraiu-se na maior parte dos Distritos. Os gastos em ofertas permaneceram calmos, pois os consumidores concentraram-se em comprar necessidades menos caras e esquivaram-se à compra de bens de luxo. As compras de carros novos permanecem deprimidas, com vários Distritos a indicarem que condições de crédito difíceis estavam a atrasar as vendas de automóveis. As viagens e actividades de turismo também declinaram… As taxas de vagas para propriedades comerciais estavam a subir em muitas partes do país… As condições de crédito permaneceram estritas ou endureceram mais. A atividade da energia continuou a enfraquecer na maior parte dos Distritos e a procura por recursos naturais permaneceu deprimida… As condições do mercado de trabalho continuaram a ser fracas no país, com salários geralmente baixos ou em queda… Relatórios dos distritos referentes a serviços não financeiros indicam que a maior parte da atividade continuou a declinar… A atividade continuou a enfraquecer ou permanece branda para fornecedores de serviços profissionais tais como contabilidade, arquitetura, consultoria de negócios e serviços legais… Os gastos do consumidor permaneceram baixos, pois as famílias concentraram-se em compra necessidades menos caras. … A atividade de viagens e turismo declinou e as pessoas em férias tendem a gastar menos…

“Os mercados do imobiliário comercial continuaram a enfraquecer em todos os Distritos. … Com poucas exceções, os Bancos Distritais relataram que os preços em todas as etapas da produção estavam geralmente baixos ou em queda… Relatórios de um certo número de Distritos indicam que os preços no varejo permanecem muito brandos…” (Fed’s Beige Book)

Está tudo mau.

O colapso financeiro deixou os proprietários de casas com o pior nível dívida/rendimento da história. Os trabalhadores foram forçados a cortar gastos opcionais e começar a poupar. A taxa de poupança das famílias passou subitamente para 6,9 por cento em Maio, um recorde de 15 anos. Em Abril de 2008 a taxa era zero.

O aspecto negativo do aumento da taxa de poupança é que isto aprofundará e prolongará a recessão. O aumento desprezível nos gastos no varejo pode ser atribuído ao estímulo fiscal. Sem o livro de cheque do governo, a economia continuará a cambalear.

Houve uma súbita mutação do consumo alimentado pela dívida para a frugalidade. O trauma da perda de emprego, de cuidados de saúde ou do lar, ou simplesmente de viver a um cheque de distância do desastre provavelmente moldará atitudes nos próximos anos. As poupanças pessoas continuarão a avolumar-se pois as famílias constroem um cesto de ovos maior para aguentar o tombo e compensar a situação líquida perdida, as contas de aposentadoria debilitadas e a possibilidade de perder o emprego. Esta mudança fundamental no comportamento do consumidor aponta para menor atividade econômica, maior redução de stocks, demissões coletivas adicionais e lucros corporativos menores. Quando os consumidores poupam, a economia contrai-se.

O gasto do consumidor constitui 70 por cento do PIB, mas os consumidores subitamente pisaram os freios. Isto é uma mudança de jogo real. Mesmo que os mercados de crédito sejam restaurados e os bancos mostrem uma maior disposição para conceder empréstimos, não haverá retorno aos níveis de consumo anteriores à crise, aqueles dias estão ultrapassados. A administração terá de proporcionar mais estímulo fiscal, programas de emprego, ajuda estatal e outras formas de alívio público para compensar a super-capacidade e queda da procura. Os balanços das famílias estão tão esticados que mais rendimento disponível terá de ser dedicada ao pagamento da dívida e ao aumento das poupanças. Não se pode confiar nas tendências de consumo do passado para prever o futuro. É uma situação inteiramente nova.

A riqueza das famílias decaiu US$14 trilhões desde que a crise começou. Isto inclui perdas apreciáveis no imobiliário, nos investimentos e nos fundos de aposentadoria. A situação líquida das casas caiu para 41 por cento (uma nova baixa) e o desemprego está em crescimento. Quando o crédito era fácil, a tomada de empréstimos aumentava, os preços dos ativos subiam e a economia crescia. Agora o processo comutou para o seu inverso. O crédito secou, os valores colaterais mergulharam, o PIB é negativo e os consumidores estão enterrados sob uma montanha de dívida. As bancarrotas pessoais, as inadimplências e os arrestos estão em alta. Levará anos, talvez uma década ou mais, para reconstruir os balanços familiares e restaurar a sinalização da economia. O consumidor continua no vazio e as possibilidades de uma recuperação robusta são nulas.”

Economista, fergiewhitney@msn.com

http://www.counterpunch.org/whitney07032009.html

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