O Futuro do Dólar nas Mãos dos EUA, por Henry C K Liu

Desde 2008 tenho sido amplamente reconhecido na Internet como a pessoa que mudou a política da China em relação ao US dólar, ao advogar desde 2002 que as exportações chinesas fossem denominadas em yuan. Os leitores chineses que fizerem uma pesquisa no Google com o meu nome chinês encontrarão numerosos posts quanto a isso.

A questão não é se os bancos centrais asiáticos continuarão a ter confiança no dólar, mas porque os bancos centrais da Ásia deveriam considerar como seu dever suportar a contínua expansão da economia do dólar através da hegemonia do dólar a expensas das suas próprias economias não-dólar. Por que as economias asiáticas deveriam enviar riqueza real, na forma de bens, para os Estados Unidos em troca de papel estrangeiro de valor em declínio ao invés de venderem os seus próprios bens na sua própria economia?

Sem a hegemonia do dólar, as economias asiáticas podem financiar o seu próprio desenvolvimento econômico com crédito soberano nas suas próprias divisas e não viciarem-se em exportações em troca de dólares fiduciários que reiteradamente perdem poder de compra por causa da indisciplina monetária e financeira americana. Quanto aos americanos, será um bom negócio trocarem os seus empregos por preços mais baixos no Wal-Mart? (Ver Follies of fiddling with the yuan , Asia Times Online, 23/Outubro/2003, para uma análise pormenorizada do relacionamento da divisa chinesa com o dólar).

Num artigo de Setembro de 2004 escrevi:

“A China precisa ativar o seu mercado interno para equilibrar o seu excessivo comércio externo. A economia chinesa pode se beneficiar enormemente com a adoção agressiva do crédito soberano para o desenvolvimento interno e o crescimento, particularmente nas regiões ocidental e central de crescimento lento.”

O crédito soberano pode ser utilizado para estimular procura interna pela elevação de níveis salariais, melhoria do rendimento dos agricultores, promoção da reestruturação das empresas estatais e reforma bancária, construção da infra-estrutura necessária, promoção da educação e dos cuidados de saúde, re-ordenamento do sistema de pensões, restauração do ambiente e promoção de um renascimento cultural.

Enquanto continuar o controle de câmbios, a China pode libertar a sua economia dos ditames da hegemonia do dólar, adotar uma estratégia de desenvolvimento equilibrado financiada pelo crédito soberano e desabituar-se do excesso de dependência das exportações em troca de dólares. O crédito soberano pode financiar o pleno emprego com salários em ascensão na economia chinesa de 1,4 mil milhões de pessoas e projetá-la rumo à maior economia do mundo dentro de um curto espaço de tempo, possivelmente em menos de cinco anos. A expansão da sua economia interna permitirá à China importar mais, permitindo-lhe, portanto exportar mais sem gaps comerciais excessivos e persistentes. Há muito a ser feito, e pode ser feito, para desenvolver o pleno potencial da economia da China, mas exportar em troca de dólares não é o caminho para isso.

“A China está em posição de lançar uma nova arquitetura financeira internacional que servirá melhor o comércio internacional. A China tem a opção de fazer do yuan uma divisas alternativa de reserva no comércio mundial ao simplesmente denominar todas as exportações chinesas em yuan. Esta ação soberana pode ser adotada unilateralmente em qualquer momento escolhido pela China. Tudo o que o Conselho de Estado Chinês tem a fazer é anunciar que a partir de uma certa data todas as exportações chinesas devem ser pagas em yuan, tornando ilegal para os exportadores chineses aceitarem pagamentos em quaisquer outras divisas. Isto porá a funcionar uma disputa frenética do importadores de bens chineses de todo o mundo para comprarem yuans à Administração Estatal de Câmbios Estrangeiros (SAFE, na sigla em inglês), tornando o yuan uma divisa preferencial com procura de mercado pronta. Companhias com receitas em yuan não precisarão mais cambiar yuan por dólares, pois o yuan, apoiado pelo valor das exportações chinesas, tornar-se-á de aceitação universal no comércio.”

“Membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), a qual importa apreciável quantidade de bens chineses, aceitariam o yuan como pagamento do seu petróleo, assim como a Rússia. Isto pode ser feito sem desligar o yuan do dólar e o SAFE pode manter a sua posição como guichet exclusivo para o comércio de yuan por outras divisas sem qualquer necessidade de novas regulamentações do controle de divisas. A taxa de câmbio adequada do yuan pode então ser ajustada pela China não com base nas exportações para os EUA e sim na das condições chinesas.”

“Se as exportações chinesas forem pagas em yuan, a China não terá necessidade de possuir reservas estrangeiras, as quais atualmente mantêm-se em mais de US$480 mil milhões [número de 2004, US$2 bilhões em 2009]. E se o dólar de Hong Kong for ligado ao yuan ao invés do dólar, as reservas cambiais de US$120 bilhões de Hong Kong podem também ser libertadas para reestruturação interna e desenvolvimento. O excedente comercial chinês permaneceria na economia do yuan. A China está a caminho de tornar-se um gigante econômico mundial mas ainda tem de afirmar o seu poder financeiro legítimo devido à hegemonia do dólar.”

“Não há maneira de impedir a China de ser uma potência manufatureira. Muitas economias asiáticas estão presas em crises financeiras prolongadas devido a dívidas excessivas em divisas estrangeiras e receitas reais de exportação cadentes em resultado da desvalorização predatória da divisa. O Fundo Monetário Internacional (FMI), orquestrado pelos EUA, tem vindo “resgatar” estas economias aflitas com uma nova agenda para além das condições habituais do FMI de austeridade para proteger os credores do Grupo do Sete (G7).”

Esta nova agenda destina-se a abrir os mercados asiáticos às corporações transnacionais dos EUA para que adquiram companhias asiáticas aflitas de modo a que as subsidiárias asiáticas adquiridas pelo estrangeiro possam produzir e comercializar bens e serviços dentro das fronteiras nacionais asiáticas como empresas internas, ultrapassando, portanto potenciais medidas protecionistas.

Os Estados Unidos, através do FMI, pretendem dissolver os sistemas financeiros tradicionalmente fechados de toda a Ásia. Este sistema mobiliza grandes poupanças nacionais para o financiamento de políticas industriais destinadas a servir gigantescos conglomerados industriais nacionais com investimento maciço destinado a sectores exportadores. O FMI, controlado pelos EUA, pretende desmantelar estes tradicionais sistemas financeiros da Ásia e forçar os asiáticos a substituí-los por um sistema global estruturalmente estranho, caracterizado por mercados abertos para produtos e serviços e, crucialmente, para produtos e serviços financeiros. O foco é naturalmente sobre a China, pois como os mandantes políticos dos EUA sabem, para onde vai a China vai o resto da Ásia.

“Os fluxos comerciais sob a globalização neoliberal no contexto da hegemonia do dólar colocaram os países asiáticos numa posição de dependência insustentável do estrangeiro, de empréstimos denominados em dólar e de capital para financiar setores exportadores que estão à mercê de mercados estrangeiros saturados enquanto menosprezam o desenvolvimento interno para promover forças produtivas e apoiar mercados consumidores internos embrionários.”

Na Ásia, fora do pequeno círculo de compradores endinheirados, a maior parte do povo não pode permitir-se comprar os produtos que produzem em abundância para exportação, nem tão pouco pode permitir-se comprar importações de alto custo. Um trabalhador médio da Ásia teria de trabalhar dias a fazer centenas de pares de sapatos com baixos salários para ganhar o suficiente para comprar um hamburger do McDonald para a sua família, enquanto os compradores asiáticos recepcionam seus simpatizantes estrangeiros em luxuosos hotéis de cinco estrelas com bifes importados de Omaha.

Os mercados fora da Ásia não podem crescer suficientemente rápido para satisfazer as necessidades de desenvolvimento das populosas economias asiáticas. Portanto o comércio intra-regional para promover o desenvolvimento interno dentro da Ásia precisa ser o foco principal do crescimento se a Ásia tiver alguma vez de ascender acima do nível de subsistência semi-colonial que inevitavelmente traduz-se em instabilidade política.

“A economia chinesa mover-se-á rapidamente para cima na cadeia de valor, em eletrônica avançada, telecomunicações e aeroespaço, as quais são inerentemente tecnologias de “dupla utilização” com implicações militares. A fobia estratégica empurrará os EUA a exercerem toda a sua influência para manter fechado à China o mercado global de tecnologias de “dupla utilização”.

Portanto o “livre comércio” para os EUA não é o mesmo que liberdade de comércio. Cada vez mais, os países do mundo todo conseguirão as suas necessidades militares a partir do mesmo mercado global de tecnologia. Privar qualquer país do acesso à tecnologia de dupla utilização não fortalecerá a segurança nacional, pois o país dela privado pode facilmente comutar para a guerra assimétrica a qual é mais desestabilizadora do que o armamento convencional.

“Mais ainda: a China inevitavelmente será um grande ator global nas indústrias do conhecimento devido à sua abundante oferta de potencial humano.”

Mesmo nos EUA, uma alta percentagem dos seus cientistas são de etnia chinesa. Com um sistema educacional atualizado, a China será um produtor de topo de capacidade mental dentro de uma década. Os líderes mundiais em alta tecnologia, tais como a Intel e a Microsoft, estão a procurar ativamente na Ásia arbitragens salariais de Pesquisa & Desenvolvimento trans-fronteiriças, primariamente na China e na Índia. Quando a China subir a ladeira da tecnologia, complementado com o aumento da procura do consumidor com uma economia em crescimento, o fluxo de comércio global será afetado, modificando a predatória “corrida para a base” do jogo competitivo de duas décadas de globalização entre exportadores asiáticos para adquirirem dólares a fim de investir na economia do dólar, rumo a um comércio destinado a ganhar as suas próprias divisas para investimento e desenvolvimento interno.

“As economias asiáticas descobrirão na China um parceiro comercial alternativo preferencial, possivelmente com termos comerciais mais simbióticos, proporcionando mais espaço para estruturar comércio destinado a potenciar o desenvolvimento interno de acordo com um caminho convergente de interesse e solidariedade regional. A ascensão de padrões de vida por toda a Ásia mudará o caminho de história, restaurando a Ásia como um centro de civilização avançada, pondo um fim a dois séculos de dominação e imperialismo econômico e cultural do Ocidente.

“As estratégias de comércio externo de todos os países que comerciam nas últimas décadas de globalização neoliberal contribuíram para a desestabilização do sistema de comércio global. Não é possível ou racional para todos os países exportarem devido a recessões internas ou pobreza. As contradições entre políticas industriais estratégicas nacionais e sistemas neoliberais de mercado aberto gerarão fricção entre os EUA e todos os seus parceiros comerciais, bem como entre blocos comerciais regionais e competidores de outras regiões. Os EUA empenham-se no comércio global para promover o seu status de super-potência, não para miná-lo. Portanto os EUA não procuram parceiros iguais como matéria de fato. Como sanções econômicas como ferramenta de política externa, os EUA têm estado a impedir, ou a tentar impedir, um crescente número de companhias transnacionais dos EUA, e de companhias estrangeiras que comerciam com os EUA, de fazerem negócios num número crescente de países considerados vis (rogue) por Washington. Fluxos comerciais não para onde são necessários, mas para onde servir melhor aos interesses da segurança nacional dos EUA.”

“A globalização neoliberal promoveu a ilusão de que o comércio é uma transação vence-vence para todos, baseada na modelo ricardiano da vantagem comparativa. Mas economistas reconhecem que sem pleno emprego global, a vantagem comparativa é meramente a Lei de Say internacionalizada. A Lei da Say declara que a oferta cria a sua própria procura, mas só sob o pleno emprego, uma pré-condição que os “supply-siders” convenientemente ignoram. Após duas décadas, esta ilusão foi estilhaçada por dados concretos: a pobreza aumentou à escala mundial e os salários globais, já baixos no princípio, declinaram desde a crise financeira asiática de 1997, e até em 45 por cento em alguns países como a Indonésia.

“Mas exportar para os EUA sob a hegemonia do dólar é meramente um arranjo no qual os países exportadores, a fim de ganharem dólares para comprarem mercadorias necessárias denominadas em dólares e pagar o serviço de empréstimos em dólar, são forçados a financiar o consumo de consumidores americanos pela necessidade de investir o seu excedente comercial em dólares em ativos em dólares como reservas cambiais estrangeiras, dando aos EUA um crescente excedente na conta capital para financiar o seu déficit crescente em transações correntes. [Os salários reais por toda a parte continuam a diminuir com nenhum fundo à vista na atual crise de crédito].

“Além disso, os excedentes comerciais são alcançados não através de uma vantagem nos termos de troca, mas sim pela absoluta auto-negação das necessidades internas básicas e de importações críticas necessárias ao desenvolvimento interno.

Não só os países exportadores estão a desvalorizar o valor do seu trabalho, a degradar o seu ambiente e a esgotar os seus recursos naturais pelo privilégio de atingir a zona fora da pobreza, eles estão a enriquecer a economia do dólar e a fortalecer a hegemonia do dólar no processo e a provocar dano também à economia dos EUA.

Portanto os países exportadores permitem-se serem roubados do capital necessário para o desenvolvimento interno crítico em áreas tão vitais como educação, saúde e outras infra-estruturas sociais, ao assumirem pesadas dívidas externas para financiarem exportações, enquanto mendigam por ainda mais investimento externo no setor exportadores oferecendo ainda mais exorbitantes retornos e isenções fiscais, colocando acrescido fardo social sobre a economia interna. “Mas muitas pequenas economias, por todo o mundo, não têm outra opção senão continuar a servir à hegemonia do dólar como um vício da droga”.

Isto foi escrito em 2004. Agora, finalmente, empurrada pela crise financeira global que começou em Julho de 2007, a China está por fim a exigir que as suas exportações sejam pagas em yuans chineses. Mas esta exigência não deveria ser interpretada como uma pressão para tornar o yuan uma divisa de reserva do comércio internacional. A China quer apenas denominar o seu comércio bilateral em yuan. Ela não deseja tornar o yuan uma divisa de reserva para o comércio internacional no qual a China não esteja diretamente envolvida. Devido à dimensão da economia, o dólar continuará a servir como uma divisa de reserva preferencial, mas apenas se os EUA colocarem a sua própria casa financeira em ordem.

[*] Presidente de um grupo de investimento privado em Nova York. A sua página na web é http://www.henryckliu.com .

http://atimes.com/atimes/China_Business/KG02Cb01.html

Anúncios
Esse post foi publicado em Crise econômica, Desafios da Humanidade e marcado , , , , , . Guardar link permanente.

Opte por deixar comentários claros, concisos, compreensíveis e racionais. Evite palavrões, palavras ásperas e críticas/ofensas a outras pessoas. Lembre-se que este blog é muito lido por menores de idade. Por favor, deixe bons exemplos.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s