Minha vida na Cidade Tiradentes – Relatos da vida real-parte 1, por Rosa de Tiradentes

A partir deste primeiro texto, passo a publicar neste blog alguns relatos da vida real de uma jovem que nasceu e vive hoje na periferia desta grande cidade que é São Paulo, escritos pela própria Rosa de Tiradentes.

O objetivo é trazer ao leitor deste blog uma realidade esquecida convenientemente pelos políticos e governos que se sucedem. Fala-se muito em crimes, em violência, e isto tudo tem origem sim. Não acontece porque o ser humano é mau, porque o ser humano não presta, porque o ser humano é um bandido, um criminoso, mas acontece sim, pela ignorância, mas não a ignorância deles, mas a ignorância de todos da sociedade que não estão colaborando para a inclusão social de todos os seres humanos.

Ninguem nasce com destino pré fixado de se tornar um bandido, ladrão, assassino, traficante, mas acontece muitas vezes como temos visto em carceragens super lotadas porque estes cidadãos foram ignorados desde a infancia.

Quem acha que tudo isto é um exagero, que se mude de mala e cuia para um imóvel no meio da Cidade Tiradentes e tente sobreviver por um mês lá. Se não se enquadrar às próprias regras do local e não for amigo de “amigos” importantes na comunidade, pode não aguentar a barra.

Aqueles que deram de ombros décadas passadas para as situações vividas nas periferias das grandes cidades, e deram de ombros às exclusões sociais que ainda acontecem fortemente, hoje são os que estão sendo incluidos, à força, nas listas e estatísticas da violência que cresce assustadoramente, e não basta contratar mais um milhão de policias, posto que a causa do problemas continua lá, esquecida, jogada num canto qualquer da cidade.

Nesta semana havia um noticiário sobre um cidadão que pôs uma faixa no bairro do Morumbi, reclamando a falta de policiamento porque houveram dois homicídios por assalto na semana anterior. Entendo como uma necessidade cada vez maior da cidade se armar com mais polícia, mas por outro lado, me soa como uma hipocrisia deste cidadão que se preocupa demais com seu próprio umbigo e se esquece completamente dos umbigos alheios, posto que para estes umbigos alheios pobres e abandonados da sociedade nunca vemos faixas conclamando políticas inclusivas.

E se a violência está aumentando é porque a exclusão social e as diferenças economicas continuam a crescer: nada mais óbvio.

Miséria gera mais violencia, em qualquer lugar do mundo.

Mas chega de blá, blá, blá…. e vamos ao primeiro relato.

Relatos da minha vida na Cidade Tiradentes, por Rosa de Tiradentes – parte 1

Olá amigos, sou jovem ainda aos vinte e oito anos de idade, “nasci e me criei” na periferia da cidade de São Paulo, e periferia é mesmo periferia, pois é desta forma que é tratada por todos os governos, algo inexistente ou algo que não deveria existir, e este pensamento deve mesmo lhes trazer conforto, pois assim a consciência não cobra ações efetivas para reconhecer os humanos que vivem nestas bordas esquecidas e jogadas pelas cidades.

A Cidade Tiradentes é um bairro da cidade de Sampa com algo em torno de um milhão de habitantes somado as circunvizinhanças.

Distante apenas trinta quilômetros do centro da cidade vivem-se outro mundo, outra realidade. Bem distante do “glamour” das televisões, das avenidas paulistas, da parte nobre da zona sul.

Aqui tudo lembra o descaso, a pobreza que um dia foi empurrada para bem longe das elites que comandavam a cidade. Aqui tudo surgiu na década de sessenta em diante como uma forma de por debaixo do tapete a sujeira representada por trabalhadores, principalmente da construção civil, economicamente pobres, os quais convinha não conviverem próximos. Época de construções de conjuntos habitacionais como a Cidade Tiradentes, tipo BNH. Um grande erro sociologicamente porquanto não houveram políticas de inserção destes cidadãos, mas apenas o afastamento e a exclusão da sociedade.

Sob o ponto de vista social e econômico, os conjuntos habitacionais tipo BNH antes de solução, tornaram-se focos de profundos problemas, porquanto foram alocados em cantões da cidade e sem nenhuma estrutura importante como trabalho, educação, saúde e transporte. Cidadãos foram jogados simplesmente. Aonde a civilização não chega, criam-se focos de violência, de subjugações por gangues do crime.

Houve melhoras ao longo de décadas, sim, é verdade, mas são melhoras pouco significativas comparadas as melhoras obtidas por outros bairros considerados melhores e por todas as conquistas da sociedade em geral.

Embora a chamada zona do fundão da zona leste tenha algo em torno de 35% de toda a população da cidade (toda a zona leste deve contar com 50% da população da cidade), aqui falta de tudo, desde escolas adequadas, segurança, hospitais (há somente dois públicos e que funcionam precariamente e com poucos recursos – bem distante da realidade, por exemplo, do Hospital das Clínicas), e até obter uma conexão de banda larga aqui é muito difícil, há somente uma operadora e tem claras limitações para o atendimento e, conforme estamos assistindo, opera muito mal também, principalmente na zona leste.

O Metro foi uma conquista, mas ele só chega na beira do bairro, da estação final de Itaquera para o fundão, há pelo menos mais vinte quilômetros de bairros.

Numa serie de relatos sobre a minha vida, passarei um agregado de experiências incríveis, algumas um tanto traumáticas e outras fantásticas, afinal não é nada fácil “sobreviver” na periferia de São Paulo em Guaianazes, na Cidade Tiradentes.

Cresci ali do ladinho também dos conjuntos habitacionais Prestes Maia, Juscelino, Inácio Monteiro, Sitio Conceição, Barro Branco e tantos outros… Em meio a uma população de mais de 1 milhão de habitantes, com uma diversidade gigantesca de culturas, costumes, crenças, hábitos, etc. Mas com muitas estórias em comum.

Histórias parecidas com as dos meus pais, que saíram de uma cidadezinha do Paraná, em busca de uma vida melhor e condições favoráveis para encaminhar seus filhos, para estes viverem e não apenas sobreviverem com dignidade. Além dos sonhos e esperanças em comum estes visinhos tinham também, as dificuldades em morar “aonde o vento faz a curva”. Um bairro tão carente de estrutura educacional, saúde, lazer, transporte… Enfim, todas as dificuldades possíveis e imagináveis.

Foi em meados de 1991 que meu pai com muito sacrifício comprou um terreno e construiu uma casinha simples, apenas coberta de telhas, um chão no piso brusco, com três cômodos e um banheiro para nós abrigarmos do tempo, e termos um teto. Na época éramos em 4 filhos, o mais velhos que chamávamos carinhosamente de Pelé, eu… o Baixinho e minha irmã que chamo de Palhacinha. Podem ver todos temos apelidos… Formas carinhosas de sermos tratados… Ah, o meu é Matraquinha, meu pai sempre disse que falo demais da conta (risos).

Eu disse que somos 4 é porque depois vieram os meus irmãos caçulas, o meu Nego e o raspo do taxo, a Maria travessa, uma família numerosa como tantas outras na vizinhança.

Tenho muitas estórias para partilhar com vocês. Histórias de vidas que se cruzam com a minha, um aprendizado sem fim de uma escola dura, duríssima que é a vida e ao mesmo tempo encantadora.

Digo encantadora, por que aprendi a ser feliz com muito pouco, e a respeitar as lágrimas de dor que banha o rosto de mães e pais aflitos, como se essas lagrimas fossem capaz de suavizar toda a dor de uma vida dura. Quando dizem que a lágrima lava a alma, eu acredito!

Mas o magnífico mesmo e ver nestes mesmos rostos de expressões sofridas, nascer a Luz de um sorriso. Gente, como um sorriso pode ser radiante e iluminar a vida, renovando as sementes de esperança e fé em um futuro melhor.

Então vamos lá!

Ah! Quem sou eu? Umas das três Marias(risos), é que minha mãe é Maria e minhas avós também. Eu Acho que no fundo, no fundo somos todas Marias.

Por incrível que parece um dos grandes desafios era ir para a escola. Por que?

Simples! As escolas sempre foram longe demais e conseguir vaga era uma loucura. Só não era pior, por que o número de desistência era proporcional, e ainda assim era super lotadas.

Eu e muitos outros estudantes fazíamos uma caminhada diária de mais de 2,5 km para chegar até a escola. Só não percebíamos a distancia, por que íamos tagarelando sem parar, assunto é o que não faltava, principalmente em dia de prova.

Costumava fazer este trajeto com mais 4 amigos: o Léo, Alex com sua irmã Jessica e a Sheila.

Um dia de pura ansiedade, tínhamos prova, a Sheila e eu de filosofia, que seria aplicada pelo professor Celso. Brincávamos! Dizíamos que na duvida faríamos como Sócrates e a resposta seria: “Só sei que nada sei!”

Só de imaginar a reação do professor, que era bem sistemático, ao ler a resposta. Já me ocorria que ele traria um frasco de veneno para o aluno, nada disciplinado.

Chegando à escola fomos, Sheila e eu, para a sala de aula, onde encontramos a Eli. Estávamos na porta comentando sobre a avaliação, quando eis que chega o professor. Ele tinha nas mãos uma flanela e álcool, para limpar as carteiras e se certificar que ninguém colaria!

Até aí, tudo bem! Afinal ganharíamos um tempinho extra para “estudar”, já que o professor ficaria bem ocupado limpando umas 40 carteiras!

O professor bem empenhado em sua tarefa aproximou-se da carteira do Paulo, um rapaz bem encrenqueiro, e pediu para ele dar licença, pois queria limpar a carteira dele. Claro, o menino se negou.

O professor contrariado e visivelmente nervoso tocou no braço do Paulo. Hummm! Pra que?!

O Paulo sem pestanejar agarrou o professor pelo colarinho e o empurrou. Partindo para agressão contra o professor, que não reagiu. Acho que como eu ele também não acreditava no que estava acontecendo.

Alguns alunos formaram um paredão entre o Paulo e o professor, que caiu em si e ficou furioso com toda a situação. Outros alunos foram busca a diretora.

O Paulo todo cheio de razão. Alias meu pai sempre dizia: “Razão todos tem e ninguém quer perder!”. E o Paulo não queria perder a dele de jeito nenhum! Como o professor também, não!

O professor disse que registraria um boletim de ocorrência contra o Paulo. Enquanto o Paulo, dizia não estar nem aí e que o professor não sabia com quem estava lidando.

Bem, a verdade é que o Paulo fazia parte de um grupo, que praticavam vandalismo puro, e não tinham mesmo o que temer. Afinal como dizem: “Para morrer basta estar vivo!”. Então ele acreditava não ter muito a perder!

Não ficamos sabendo do desfecho desta estória, só sei que o professor abandonou as aulas. O Paulo? Bem, o Paulo uns dois anos depois foi assassinado e perdeu o maior dos bens, a vida!

Nunca me pareceu tão verdadeiro os dizeres: “O plantio é livre, mas a colheita é obrigatória!”

Segundo fiquei sabendo, dois dos amigos do Paulo se converteram ao Evangelismo, e formaram família, para o alivio dos seus pais.

Eu sempre tento imaginar como ficaram os pais do Paulo?! Certamente não muito diferente de tantos pais. Pais estes que na madrugada vão para os seus trabalhos, atravessam a cidade de uma ponta à outra em transportes coletivos, precários… E ao chegarem a casa, recebem a noticia que seu filho está morto, de forma tão violenta quanto simples. Alívio para os moradores de bairros nobres, mas a dor da perda de um filho é igual à de todos os pais que perdem seus filhos.

Lembro-me de algumas situações onde fomos abordados em casa por mães cheias de dor em seu coração, que chorava a perda de seu filho e implorava por ajuda. Para enterrar seus filhos, com um pouquinho de dignidade. Dignidade está que em vida não tiveram.

Não foram apenas os filhos que os pais enterraram, mas sim uma vida de sonhos e lutas por uma vida melhor para os seus, que se perderam no tempo.

Em que tempo será que perdemos essas vidas? Quem é o culpado? Essas sempre foram perguntas que me fiz, e não encontrei resposta. Encontrei apenas uma idéia de que não importa de quem é a culpa, isto não faz diferença. A diferença está em saber, de quem é a responsabilidade? E certamente eu sou responsável, de forma direta ou indireta por está vidas, que se vão a gerações e gerações, sem ao menos viverem.

Rosa de Tiradentes

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4 respostas para Minha vida na Cidade Tiradentes – Relatos da vida real-parte 1, por Rosa de Tiradentes

  1. Cláudio Roberto Celestino Jr disse:

    Rosa, parabéns!
    Assim como o Herbert Terris, eu também saí de lá. Não critico a atitude dele em tentar esquecer, mas eu não faço e nem procuro fazer isso, ainda esse mês, por ex., fui com um amigo visitar os prédios em que morávamos, daí, no que ele morava, encontramos com jovens que na nossa adolescência eram apenas recém nascidos contando-nos que ganharam dinheiro fácil. Ficamos muito felizes em podermos aconselhá-los a “correr pelo certo” argumentando sobre desfechos de histórias que começaram como a dele.
    Acho que se todos nós que vencermos – me considero um vencedor, pois sou nascido e criado no bairro brilhantemente descrito pela ROSA, passei, não por todas, mas por algumas dificuldes por ela descrita. Pois sou mais jovem, nasci em 89. Minha escola não ficava a mais de 60 metros da minha casa, fiz todo o ensino fundamental lá, mudei-me, fiz curso técnico no Tatuapé, FATEC em Artur Alvim, e hoje sou funcionário público da USP- passássemos a diante os relatos das dificuldades e alegrias de nossa trejetória, muitos enxergarão em nós, uma possibilidade de “se dar bem na vida” sem fazer o que o sistema quer, como diria uma letra de RAP que eu gosto muito “, Roubar pra ter um nike nos pés”. Alias, falando em RAP, pra mim ele foi muito importante, o vejo como uma verdadeira fonte de experiências de vida que nos instruem a trilhar o caminho do bem. E apesar disso muitos “bacanas” o discriminam como sendo música de bandido. O que prova que dinheiro não compra sabedoria.
    Um grande abraço a todos. E mais uma vez, PARABÉNS PELO BLOG.

  2. Rosa da Cidade Tiradentes disse:

    Olá, Herbert Terris, Elícia e leitores deste blog do meu querido Atama Morya… grata pelas mensagens!

    Hertert Terris,meus parabéns, pela coragem e superação! Vc é um espelho nitído que é possível, sim, trilhar novos caminhos e escrever uma nova estória de vida, com pespectivias mais dignas de serem vividas e muito mais humanas.

    Sucesso para os seus projetos!

    Obrigada pelo seu depoimento.

    Abs.

    Rosa da Cidade Tiradentes

  3. Herbert Terris disse:

    Atualmente tenho 24 anos, dos quais 8 residi na Cidade Tiradentes.
    Tenho recordações, poucas boas… muitas ruins. É muito dificil a vida para o jovem, levando em consideração, que vc não recebe bons exemplos e ao passar do tempo, vc acaba se adaptando… fazendo parte. Passa a achar normal homicídios, roubos, uso de drogas, abandono escolar etc. Com 14 anos não sentia vontade de estudar, não trabalhava pq era menor, e fui ganhar o pão de cada dia nos faróis de SP. Fico triste em saber q a maioria dos meus amigos (os q são vivos) de infãncia nao terão a mesma oportunidade q eu tive, minha vida mudou quando mudei-me para outro estado. Atualmente faço Matematica na Universidade Federal de Tocantins, e a procura de assuntos para um trabalho de Sociologia, de tema “violencia na escola” encontrei seu blog, e revivi minhas raízes, meu passado, o qual imperceptivelmente apaguei de minhas memorias.. talvez por me fazer mal recordar.

    Herbert Terris

  4. Elicia disse:

    É…Cidade Tiradentes,Cidade dos esquecidos,como tantas outras existentes País afora…muda-se o nome do bairro,mas as lágrimas derramadas a noite são as mesmas.

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