Para negociador chinês, responsável pelas emissões de CO2 é o Ocidente

A China e a India estão corretas em não aceitar simplesmente a imposição de redução da emissão de gases do efeito estufa, de cima para baixo. Há de se encontrar um equilíbrio entre o direito de crescimento dos países em desenvolvimento e suas enormes populações que vivem abaixo da linha de conforto econômico, hoje representadas por mais de cinquenta nações, e o quanto os cinco países mais ricos e suas populações acima da média econômica podem reduzir suas riquezas temporariamente.

No fim entramos em uma disputa fria entre ricos e pobres, algo comum na história da humanidade, nada de novo portanto. Quem ganha e quem perde? Apenas o mundo é a vítima.

Podemos usar pequenos exemplos, como a grande retirada de madeiras na Amazonia que estão colaborando para este desmatamento decisivamente. Acaso não houvesse um comércio internacional de madeiras, certamente o interesse econômico acabaria, assim como acabou com relação a pele de animais quando proibida mundialmente. Vale lembrar que praticamente todas as madeiras retiradas de florestas tropicais como a amazonica, são adquiridas por intermédio de empresas de fachada, e vendidas e consumidas por países ricos, principalmente europeus. Países europeus gostam muito de criticar o desmatamento brasileiro, sentados em cadeiras e mesas de madeira brasileira. Uma hipocrisia, para variar.

Precisamos mesmo saber até que ponto o mundo está verdadeiramente engajado na luta pela redução do aquecimento global ou tudo mesmo não passa de uma jogada econômica e política.

Por Atama Moriya, em 12-07-2009.

Vejamos a entrevista publicada pela Der Spiegel, aliás, vale lembrar a péssima qualidade da mídia brasileira, seja televisiva, escrita ou radiofônica, que raramente fazem matérias realmente boas. Só se preocupam com violência, mortes e futebol.

Der Spiegel

Christian Shwärgerl

O avanço para o fechamento de um novo acordo global do clima tem sido lento. O “Spiegel” conversou com o principal negociador do clima da China, Yu Qingtai, sobre a responsabilidade do Ocidente pelas emissões de CO2 na China e a frustração no mundo em desenvolvimento.

Der Spiegel: A China é hoje o maior emissor de CO2 do mundo. A China está reconhecendo sua responsabilidade pela mudança climática?

Yu Qingtai: Consideramos a mudança climática com muita seriedade, mas não esquecemos que somos 1,3 bilhão de pessoas. A diferença de emissões per capita entre a China e as nações desenvolvidas ainda é enorme. Não dá para dizer ao povo chinês que nascer na China significa ter permissão de emitir apenas 20 ou 25% do CO2 emitido por alguém nascido na Europa.

Der Spiegel: Então as suas emissões vão crescer de 4,6 toneladas per capta até alcançar os níveis Ocidentais de 10 a 20 toneladas per capta?

Yu Qingtai: De forma alguma. Não queremos alcançar os níveis de emissão perigosos da Europa ou dos EUA. Seria muito ruim para o mundo e para nós. Temos que encontrar um caminho diferente, um caminho melhor e sustentável. Mas não vamos permitir que os países ocidentais impeçam o povo chinês de comprar um carro em nome do clima para que continuem comprando carros eles mesmos. Seria totalmente inaceitável. Eu estou fortemente comprometido com o combate da mudança climática, mas, ao mesmo tempo, tenho orgulho que cada vez mais os meus compatriotas podem comprar um carro e ir trabalhar de carro.

Der Spiegel: Então as emissões dos carros vão crescer infinitamente?

Yu Qingtai: Observe simplesmente os novos regulamentos que estamos introduzindo para emissões de CO2 de automóveis. Estamos lutando para ser tão rígidos quanto a União Européia e alguns de nossos regulamentos são ainda mais estritos do que os americanos. Isso vai transformar nossa indústria de carros doméstica. Serão introduzidas tarifas altas para carros grandes que bebem muito, como SUVs, em um esforço para estimular a compra de carros menores e mais eficientes. Isso se aplica tanto a carros produzidos internamente quanto aos importados. Os elétricos, por outro lado, serão subsidiados.

Der Spiegel: Por que a China não está tentando evitar as práticas de consumo enganadas dos países ocidentais em primeiro lugar?

Yu Qingtai: Não queremos negar ao nosso povo a esperança de um padrão de vida melhor. Estamos lutando para fazê-lo de forma mais sustentável. Nossos programas nacionais de combate à mudança climática já são muito ambiciosos. Por exemplo, estamos prestes a melhorar nossa eficiência energética em 4% ao ano, vamos expandir o uso de energias renováveis e energia nuclear e vamos aumentar a cobertura de florestas para 20%. Nosso histórico não vai empalidecer em comparação com o de ninguém.

Der Spiegel: Por que, então, vocês não querem se comprometer com metas internacionais de CO2 e remover os obstáculos para que os EUA também ingressem em um acordo?

Yu Qingtai: Porque há uma diferença fundamental entre a China e as nações industrializadas. As pessoas vêem nosso índice de crescimento impressionante e se esquecem que ainda somos uma nação em desenvolvimento,com dezenas de milhões de pessoas ainda vivendo na pobreza. Os países ocidentais são responsáveis pela maior parte do CO2 acumulado na atmosfera. Sua responsabilidade histórica é inegável, mas ainda assim alguns tentam culpar o mundo em desenvolvimento para distrair a atenção de seus próprios erros.

Der Spiegel: O senhor acredita que a China e o governo do presidente americano Barack Obama conseguirão encontrar uma posição comum?

Yu Qingtai: Nós já concordamos com esforços conjuntos para desenvolver várias tecnologias para combater a mudança climática. Se você olhar de perto, os EUA e a China enfrentam desafios similares, tais como uma forte dependência do carvão e a necessidade de melhorar a eficiência energética. Temos muitos interesses similares. Então acredito que vamos encontrar um território comum na medida em que avançarmos.

Der Spiegel: A China tornou-se a “fábrica do mundo”. As nações industrializadas exportaram suas emissões de CO2 para a China?

Yu Qingtai: Acadêmicos chineses reconhecem que de 15% a 20% das emissões chinesas vêm de produtos que terminam em mercados exteriores, em particular nos EUA e na Europa. Entregamos produtos baratos e de boa qualidade para o mundo, mas as emissões resultantes são contabilizadas apenas como emissões chinesas. O padrão é igualmente injusto em outros países em desenvolvimento. Então, precisamos encontrar uma forma de ajustar isso nas negociações climáticas internacionais. Isso tem que ser levado em conta.

Der Spiegel: Ainda assim, não seria do interesse da China tornar-se líder asiática em respeito ao meio-ambiente?

Yu Qingtai: Temos plena consciência que também é de nosso interesse ser parte da luta internacional contra a mudança climática. Para um país com 1,3 bilhão de habitantes, a segurança alimentar é uma importante preocupação. Se as safras fracassarem por causa de condições climática extremas como resultado da mudança climática, como secas em enchentes, ninguém será capaz de nos ajudar a cumprir o desafio da segurança alimentar. A maior parte de nossos centros econômicos está localizada ao longo da costa. Se os níveis do mar se elevarem, toda a economia chinesa e mundial vai sofrer. É por isso que precisamos de ações corajosas.

Der Spiegel: O tempo está começando a ficar curto; a reunião de cúpula de Copenhague, na qual o mundo espera fechar um acordo que vai suceder o Protocolo de Kyoto, está a cinco meses de distância. Qual é a sua noção do progresso em relação a um acordo internacional?

Yu Qingtai: Há uma frustração geral entre as nações em desenvolvimento- e a China compartilha dessa frustração. Em uma convenção da ONU há 17 anos, as nações industrializadas se comprometeram a reduzir suas emissões de CO2 e ajudar os países desenvolvimento com recursos financeiros e transferência de tecnologia para termos um futuro mais verde. Contudo, apenas poucos países de fato tentaram cumprir suas promessas.

Der Spiegel: O senhor recebeu alguma oferta convincente no que concerne assistência financeira?

Yu Qingtai: Quando falamos de finanças, as nações desenvolvidas referem-se aos mercados e às empresas privadas como fonte adicional de fundos. Contudo, depois de anos sem fazer nada, meramente apontar para os mercados é abandonar seus próprios compromissos como governos.

Der Spiegel: Não seria uma chance para a China crescer em um papel de liderança internacional?

Yu Qingtai: Investimos enormes recursos em ciência e tecnologia e dedicamos grandes partes de nosso pacote de estímulo econômico à tecnologia verde. Mas ainda somos um país em desenvolvimento com um nível tecnológico relativamente menor e, frequentemente, nós, os países em desenvolvimento, não podemos pagar pela tecnologia que precisamos urgentemente para alcançar emissões de carbono menores. O que precisamos é de um nível totalmente novo de cooperação em ciência e o compartilhamento das melhores tecnologias verdes.

Der Spiegel: As empresas ocidentais não gostam de compartilhar tecnologia. Elas querem lucrar com elas.

Yu Qingtai: Nas mesas de negociação, os governos ocidentais nos dizem que não são proprietários dessas novas tecnologias e por isso não podem transferi-las. Contudo, a transferência de tecnologia é um compromisso assumido pelos países desenvolvidos – e eles devem fazer isso acontecer. Respeitamos totalmente os direitos de propriedade intelectual das empresas que desenvolvem essas tecnologias. Mas por que não estabelecer um fundo para compensar as empresas pelo lucro perdido e pelo compartilhamento da propriedade intelectual e assim tornar as tecnologias mais inovadoras disponíveis para o mundo todo?

Der Spiegel: Assim, o governo alemão pagaria a Siemens, por exemplo, para oferecer à China suas usinas de energia mais eficientes a um preço mais barato do que o normal?

Yu Qingtai: Sim, essa seria uma forma de tornar a tecnologia de energia eficiente mais acessível para os países em desenvolvimento. Há muitas formas de avançar, se você tiver vontade política. Até agora, faltou essa vontade política, e os resultados são que o mundo em desenvolvimento está crescendo com a ajuda de tecnologias intensivas em carbono, ineficientes e velhas.

Der Spiegel: O senhor acredita que haverá um acordo na reunião de cúpula da ONU em Copenhague em dezembro?

Yu Qingtai: Ainda estou otimista. Se fracassarmos, isso vai influenciar de forma negativa não apenas nossas vidas, mas as vidas das gerações que virão. Temos todas essas posições e alvos diferentes em nossas mentes, mas precisamos trabalhar seriamente para garantir que a conferência de Copenhague tenha sucesso. Porque, no final, se não resolvemos essa crise que nos afeta a todos, seremos todos prejudicados.

Tradução: Deborah Weinberg

http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2009/06/19/ult2682u1210.jhtm

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