Ocidente interpreta de forma errônea acontecimentos do mundo muçulmano, por Javier Solana

Alastair Crooke*
Global Viewpoint

O lendário ex-agente de inteligência britânica que foi assessor do alto representante da União Europeia, Javier Solana, para questões do Oriente Médio e participou participou de negociações com o Hamas e outros movimentos islâmicos mostra uma visão diferente do Irã, do Hezbollah e do Hamas

A maioria dos analistas do islamismo político comete o mesmo erro. Eles assumem instintivamente que o conflito com o Ocidente é algo vinculado principalmente a políticas externas específicas, especialmente no que se refere àquelas dos Estados Unidos em relação a Israel, ao mundo árabe e ao Irã. Eles acreditam que, se tais políticas fossem modificadas, os problemas desapareceriam.

Na verdade, com base no meu contato intensivo no decorrer dos anos com clérigos iranianos, o Hizbollah e o Hamas, creio que o conflito com o Ocidente é algo bem mais profundo. Ele está baseado em filosofias radicalmente diferentes a respeito da natureza humana e da sociedade ideal.

Incapaz de entender essa realidade, o Ocidente continua interpretando de forma errônea os acontecimentos do mundo muçulmano. Nas suas bases, o Ocidente diz respeito ao individualismo, à racionalidade instrumental e ao materialismo; os movimentos de resistência islâmicos estão calcados em uma abordagem da vida que é comunitária e espiritual.

A Revolução Iraniana ocorreu 30 anos atrás, e há 50 anos foi criado o primeiro movimento muçulmano de resistência, a Irmandade Muçulmana, no Egito. Mas muitos no Ocidente continuam confusos: por que, afinal, existe uma resistência islâmica? “Os muçulmanos estão rebelados contra o que?”, questionam os ocidentais.

O mais chocante é que mesmo hoje em dia não parece haver clareza quanto à Revolução Iraniana: não seria ela nada mais do que um golpe populista contra o poder e a truculência do xá que foi adotada pelos aiatolás – conforme muitos afirmam?

Tais explicações parecem totalmente inadequadas para explicar acontecimentos que mobilizaram e energizaram – e ainda o fazem – centenas de milhões de muçulmanos. No meu livro, “Resistance: The Essence of the Islamist Revolution” (“Resistência: A Essência da Revolução Islâmica”), eu argumento que a revolução consiste essencialmente em uma “Recusa” – uma grande recusa em aceitar um entendimento do ser individual ou dos mundos que é característico da consciência ocidental secular contemporânea.

Em suma, o islamismo não é irracional – ele não se baseia no capricho divino. O islamismo é acessível à explicação racional. E ele procura criar uma alternativa aos métodos do Ocidente.

A modernidade ocidental sustenta-se basicamente sobre dois pilares:
O primeiro foi descrito pelos historiadores como a “Grande Transformação”. Ela começou na Europa no século 18 e baseou-se em uma filosofia moral que enxergava o bem-estar humano como algo vinculado à operação eficiente dos mercados. Seres humanos, ao buscarem satisfazer desejos e necessidades, interagiriam com outros, através do mecanismo de mercado, para maximizarem não só o bem-estar individual, mas também o da comunidade.

Associada a esta havia uma outra ideia, adotada pelos puritanos ingleses, e que encontrava-se profundamente enraizada na história anglo-saxã: a de que a “mão invisível” da providência também atuava na política a fim de provocar um resultado “ideal”.

Segundo esta idéia, os conflitos e embates políticos entre as tribos anglo-saxãs nas sociedades primitivas fizeram surgir uma harmonia e uma ordem política espontâneas. Com base nesse “mercado” político, os puritanos ingleses acreditavam que todas as instituições anglo-saxãs que representavam a epítome da liberdade e da justiça emergiram espontaneamente.

Tais ideias centrais sobre a política e a economia foram transportadas para a América pelos peregrinos que transformaram-se no arquétipo para o sistema de governo dos Estados Unidos. Os conceitos de nação-Estado, democracia e direitos humanos são todos derivados desta corrente protestante.
É claro que a “Grande Transformação” não surgiu naturalmente nem espontaneamente. A criação de um sistema de mercado exigiu uma maciça intervenção estatal para subordinar importantes objetivos sociais, comunitários e políticos a esta finalidade mais importante. Isso gerou tensões que fizeram com que a Europa do século 19 chegasse à beira da revolução e, ao final da década de 1920, deixaram o islamismo em crise, dependurado pelas pontas dos dedos sobre um abismo.

No século que conduziu à crise do islamismo da década de 1920, a “Grande Transformação” foi exportada para o mundo muçulmano. Houve pressa por parte do Ocidente para criar nações-Estados etnicamente unitárias nas ex-províncias ocidentais do Império Otomano. Uma nação-Estado forte era considerada a única estrutura dotada de poder instrumental suficiente para impor as mudanças sociais exigidas para a imposição da liberalização do mercado às sociedades muçulmanas.

Conforme havia ocorrido anteriormente na Europa, o impacto da “transformação” foi verdadeiramente traumático. Aproximadamente cinco milhões de europeus muçulmanos foram expulsos das suas casas entre 1821 e 1822 – à medida que o Ocidente criava nações-Estados nas ex-províncias otomanas.

A determinação dos Jovens Turcos de reproduzir a modernização europeia secular do mercado liberal na Turquia resultou em um custo terrível: um milhão de armênios morreram, 250 mil assírios foram eliminados e um milhão de gregos ortodoxos anatolianos foram expulsos. A identidade curda foi suprimida, e finalmente o islamismo foi demonizado e suprimido por Kemal Ataturk. As instituições islâmicas foram fechadas; e o califado de 1.400 anos de idade foi abolido.

Paradoxalmente, foram os kemalistas e a transformação da Turquia, tão admirados pelos ocidentais, que, ao cortar os vínculos com a superestrutura do califado que proporcionou estabilidade ao mundo islâmico por tantos séculos, inadvertidamente criaram as condições nas quais o islamismo no nível popular pôde transmutar-se e evoluir para um movimento revolucionário de baixo para cima, que incluiu a marginalizada minoria xiita.

Esta é uma rota nítida que, a partir da secularização da Turquia, conduziu à Revolução Iraniana mais de meio século depois.

Desorientada e desmoralizada, a comunidade muçulmana no início do século 20 encontrava-se sob o cerco do secularismo forçado na Turquia, no Irã e em outros locais. Com a difusão do marxismo entre os seus membros, ela deu início a uma jornada de descoberta. Ela buscou uma solução para os seus problemas ao descobrir um novo “self”.

Os islamitas retornaram ao Alcorão em busca de idéias. O Alcorão não é um mapa ou roteiro para a política ou o Estado: conforme afirma com freqüência, ele não se constitui em nada de novo. O Alcorão é um “lembrete” de velhas verdades, já conhecidas por todos nós. Uma delas é que, para que os seres humanos vivam juntos com sucesso em sociedade, eles precisam praticar a compaixão, a justiça e a equidade.

Esse insight está na raiz do islamismo político. É um princípio que representa uma inversão completa da “Grande Transformação”. Em vez da proeminência do mercado ao qual todos os outros objetivos sociais e comunitários encontram-se subordinados, a construção de uma sociedade baseada na compaixão, na equidade e na justiça torna-se o objetivo supremo – ao qual os outros objetivos, incluindo os mercados, subordinam-se.

Isto é algo de revolucionário sob outro aspecto: em vez de o indivíduo ser o princípio organizacional em torno do qual tomam forma a política, a economia e a sociedade, o paradigma ocidental é novamente invertido. É o bem-estar coletivo da comunidade em termos de tais princípios – e não o indivíduo – que torna-se o indicador de realização política.

Em suma, os islamitas estão reabrindo um antigo debate – um debate cujas raízes encontram-se tanto na filosofia ocidental quanto na muçulmana. Iniciado por Platão, esse debate questiona o objetivo da política. Alguns ocidentais estão perturbados devido ao fato de, após 200 anos de opinião firmada, o paradigma ocidental estar sendo novamente questionado. Um conservador norte-americano me disse recentemente que, com Descartes, o Ocidente descobriu a “verdade objetiva” por meio da ciência e da tecnologia. Ela “nos” tornou ricos e poderosos e os muçulmanos não poderiam suportar isso. Segundo este indivíduo, os muçulmanos sabem que cedo ou tarde serão forçados a ceder diante da “verdade” ocidental.

Mas a revolução islâmica é mais do que política. Ela é uma tentativa de modelar uma nova consciência – de escapar das pré-suposições mais abrangentes da nossa era. Ela recorre à tradição intelectual do islamismo para oferecer um entendimento radicalmente diferente do ser humano, e para escapar da hegemonia e da rigidez do pensamento cartesiano.

Trata-se de uma viagem de descoberta rumo a um novo “self” que está longe do seu final. Ela apresenta muitos problemas, mas as suas descobertas intelectuais dão aos muçulmanos (e aos ocidentais) o potencial para superarem as limitações do materialismo ocidental. É isso que empolga e energiza. Conforme o líder do Hizbollah me respondeu sem hesitação quando perguntei o que a Revolução Iraniana significava para ele, os muçulmanos contam novamente com a liberdade para pensar de forma islâmica.

Não é possível, portanto, entender a resistência iraniana ou muçulmana sem compreendê-la, também, como um evento filosófico e metafísico. A omissão dessa compreensão é que ajuda a explicar as interpretações errôneas repetidas pelo Ocidente no que se refere ao Irã, à Revolução Iraniana e aos acontecimentos naquela região.

É claro que existe uma outra faceta do islamismo: o islamismo, assim como o cristianismo, passou, desde o início, por uma luta entre uma interpretação estreita, literal e intolerante e uma tradição intelectual calcada na filosofia, na racionalidade e na transformação do conhecimento. Embora não sejam vistos de tal forma pela maioria dos analistas ocidentais, que só os enxergam sob o prisma da oposição à ocupação israelense, movimentos como o Hezbollah e o Hamas fazem parte desta última tradição intelectual.

De uma forma perversa, nos últimos 50 anos, é para os “literalistas”, muitas vezes chamados de salafistas, que o Ocidente se volta para isolar as “ameaças ao seu interesse” no Oriente Médio – reproduzindo a filosofia de contenção da Guerra Fria.

A orientação saudita de salafismo foi utilizada pelo Ocidente para conter o nasserismo, o marxismo, a União Soviética, o Irã e o Hezbollah; mas ao utilizar a orientação puritana literalista, o Ocidente não entendeu o mecanismo através do qual alguns movimentos salafistas migraram através das divisões e dissidências para transformarem-se nos movimentos dogmáticos, repletos de ódio e frequentemente violentos que de fato ameaçam os ocidentais, bem como os outros muçulmanos.

Ironicamente, o Ocidente do Iluminismo encontra-se no lado errado dessa cisão – apoiando o dogma contra a racionalidade aberta da evolução religiosa. Talvez não seja uma surpresa o fato de um Ocidente literalista e dogmático ter contribuído também para o literalismo no islamismo. Mas o Ocidente, apegando-se à sua percepção equivocada de que está apoiando a docilidade e a “moderação” contra o “extremismo”, paradoxalmente transformou o Oriente Médio em um local menos estável, mais perigoso e mais violento.

*Alastair Crooke, o lendário ex-agente de inteligência britânico do MI6, foi assessor do alto representante da União Europeia, Javier Solana, para questões do Oriente Médio de 1997 a 2003, bem como da Comissão Mitchell que analisou as causas da intifada palestina. Ele participou de negociações com o Hamas e outros movimentos islâmicos, incluindo o fim do cerco à Igreja da Natividade, em Belém, em 2002. Atualmente, Crooke dirige o Fórum de Conflitos em Beirute. Recentemente ele publicou o livro “The Essence of the Islamist Revolution” (“A Essência da Revolução Islâmica”).

Tradução: UOL

http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/06/10/ult1859u1091.jhtm

Anúncios
Esse post foi publicado em NOTÍCIAS, texto e marcado , . Guardar link permanente.

Opte por deixar comentários claros, concisos, compreensíveis e racionais. Evite palavrões, palavras ásperas e críticas/ofensas a outras pessoas. Lembre-se que este blog é muito lido por menores de idade. Por favor, deixe bons exemplos.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s