Pico petrolífero e pico do capitalismo

por Rick Wolff

O conceito de pico petrolífero pode ter uma aplicação mais generalizada do que os seus amigos e inimigos concebem. Quando caímos no segundo maior crash do capitalismo americano em 75 anos de história (com cerca de uma dúzia de “ciclos de baixa nos negócios” no intervalo entre os crashes), alguns sinais sugerem que estamos também no pico do capitalismo. O capitalismo privado (quando ativos produtivos são de propriedade de indivíduos e grupos privados e quando os mercados ao invés do planejamento estatal dominam a distribuição de recursos e produtos) demonstrou reiteradamente uma tendência para explodir na superprodução e/ou inflação de bolhas de ativos que arrebentam com horríveis consequências sociais. Reformas infindáveis, reestruturações e regulamentações foram todas justificadas com o argumento não só de livrar-nos de uma crise como também de prevenir finalmente futuras crises (como Obama repetiu). Todas elas fracassaram em seus propósitos.

A tendência à crise parece não ter fim é uma qualidade inerente do capitalismo. Na melhor das hipóteses, as explosões foram dominadas antes de provocaram grande devastação, embora habitualmente isto apenas tenha adiado e agravado aquela devastação. Um caso recente pertinente: o crash do mercado de ações no princípio de 2000 foi limitado nas suas conseqüências em termos de danos sociais (recessão, etc) por uma redução sem precedentes históricos de taxas de juros e expansão da oferta monetária pela Reserva Federal de Alan Greenspan. A resultante bolha imobiliária temporariamente compensou os efeitos do estouro da bolha do mercado de ações, mas quando o imobiliário entrou em crash uns poucos anos depois, o que tinha sido adiado, golpeou de forma catastrófica.

O fracasso reiterado em travar esta tendência inerente à crise começa a revelar-nos a natureza do sistema. A pergunta cada vez mais insinua-se no interior de discursos com um longo histórico de negação da sua pertinência: será que o capitalismo, como sistema, ultrapassou a sua vida útil?

Repetidas intervenções do Estado para resgatar o capitalismo privado das suas próprias crises autodestrutivas ou dos movimentos políticos das suas vítimas produziram períodos maiores ou menores de capitalismo de Estado (quando ativos produtivos são possuídos ou controlados significativamente ou regulados por responsáveis do Estado e quando o planejamento estatal domina os mercados como mecanismo de distribuição de recursos e de produtos). Mas os capitalismos de Estado não resolveram tão pouco as tendências do sistema para as crises. Isto aconteceu porque eles reiteradamente abriram caminho para oscilações de retorno ao capitalismo privado (ex.: a “revolução” de Reagan nos EUA, o fim da URSS, etc).

Além disso, a história dos esforços de Franklin Dellano Roosevelt para neutralizar a Grande Depressão ensina lições fundamentais acerca do capitalismo como um sistema que não pode ser eternamente adiado. Uma vez que as reformas do New Deal não chegaram a transformar a estrutura das corporações, elas deixaram intactos os conselhos de administração e os acionistas que dispunham tanto dos incentivos como dos recursos para evadi-las, minando e abolindo aquelas reformas. A evasão foi o seu foco até a década de 1970 e a sua abolição a partir daí. O capitalismo sistematicamente organiza as suas instituições chave de produção – as corporações – de modo a que os seus conselhos de administração, ao cumprirem adequadamente as suas tarefas, produzam crises, a seguir minem reformas anti-crise e, portanto reproduzam aquelas crises.

Por conseguinte, a atenção está vagarosamente a mudar para o questionamento de um aspecto do capitalismo que nunca foi efetivamente desafiado, muito menos mudado, ao longo de mais de um século: a organização interna das corporações. As suas decisões sobre o que, onde e como produzir e como utilizar lucros são todas tomadas não pela massa de trabalhadores (nem pelas comunidades que elas impactam), mas ao contrário por um conselho de administradores. Compostos tipicamente por 15 a 20 indivíduos, os conselhos de administração são elites minúsculas responsáveis para com elites apenas ligeiramente maiores constituídas pelos principais acionistas das corporações. Cada administração corporativa é encarregada pelos seus principais acionistas de maximizar o lucro, a fatia de mercado, o crescimento ou o preço. A massa de trabalhadores tem de viver com o resultado das decisões da administração sobre as quais não exercem depois qualquer controle. Esta é uma posição que compartilham com as comunidades em torno dependentes destas mesmas corporações.

Esta organização capitalista da corporação gera regularmente decisões de investimento, produção, finanças, marketing e emprego que produzem instabilidade sistêmica – crises econômicas. Grande parte deste sistema bipolar trouxe-nos ao pico petrolífero devido ao seu desenvolvimento, de modo que as suas contradições nos trouxeram agora ao pico do capitalismo. Esta organização profundamente não democrática do sistema de produção exige transformação radical.

Suponha-se, de acordo com tal transformação, que os trabalhadores resolvam funcionar como os seus próprios conselhos de administração. Todas as programações de empregos semanais daí em diante especificariam quatro dias com tarefas particulares de produção e um dia na participação em decisões coletivas sobre o que, como e onde produzir e o que fazer com lucros. Tendo exigido autocracia política para abrir caminho a mecanismos democráticos, os trabalhadores teriam então alcançado o mesmo em relação à autocracia econômica que estrutura as corporações capitalistas. A economia e a sociedade evoluiriam então de forma muito diferente do padrão capitalista. Se tivermos de redesenhar nossas interações com a natureza levando em conta o pico petrolífero, por que não redesenhar nossas estruturas empresariais para levar em conta a história dos esforços fracassados para conter a disfunção do capitalismo geradora de crises?

Podemos nós considerar uma aliança mutuamente benéfica entre os que criticam o abuso dos nossos recursos energéticos e os críticos do abuso das nossas capacidades produtivas? O que acha de uma aliança concentrada numa reorganização da produção radical, democrático e, portanto anticapitalista? A idéia seria fazer cidadãos e trabalhadores – aqueles que devem viver com os resultados do que as empresas fazem – tomem decisões conjuntas centradas sobre as necessidades coletivas, tanto produtivas como ambientais.

27/Março/2009

[*] Professor de Economia na Universidade de Massachusetts – Amherst. Autor de muitos livros e artigos , incluíndo (c/ Stephen Resnick) Class Theory and History: Capitalism and Communism in the USSR (Routledge, 2002) e (c/Stephen Resnick) New Departures in Marxian Theory (Routledge, 2006).

O original encontra-se em http://www.theoildrum.com/node/5245

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