Crônica de Nhá Benta em carta para Uma Peregrina

Hoje re-publico uma crônica em homenagem a grande amiga Peregrina, in memoriam aqui na Terra, mas vivíssima em outros planos.

Carta de Nhá Benta para uma Peregrina

“Minha querida fiinha,

Arresolvi iscrever esta carta dispois de muito tempo porquê me disseram, a comadre Marina e o cumpadre aquele Amigo que ocê tava com dor de dedinho…ihhh…coitadinha.

Mas num liga não, fui falar com o Chico, o preto véio aqui da roça e num é que ele me aprontou uma! Tava eu na cozinha da casa dele de madeira véia que só tem dois cômodos, a cozinha e o quarto de durmir, intão eu pedindo pra ele uma rezinha pra ti, ele mi pedi pra isperar e foi pro quarto, e to eu lá, isperando, isperando e num é que tava dimorando pra chuchu. Intão, minha fia….ele intra pela porta da frente di novo! Uai…nem vi ele passar pra fora! Qui véio louco! Fiquei tudinha arrepiada. Nossa mãe do céu! Mas fingi que num apercebi, má tava louqinha pra correr!

Intão ele mi falou qui falou com o caboclo véio, mai véio que ele, magina só, in ele que já tá mai veio qui eu, qui já toôu todinha cabada, tudinho caída, esse tal caboclo véio deve tá num bagaço só, inté pior que aquele tocos veios lá de casa que é tudinho do tempo dos meus birsavós. E num é???

Intão o preto veio mi disse – Nhá Bentinha, óia só a intimidade desse véio! Fala pra Periquita, Periquita não, reclamei braba, é Perigrina- pe-ri-grina seu Preto véio… Ah…táh bõão…in é que mi confundi porcausa dos periquitinhos meus que andam aqui no meu quintar…Ta bão seu Preto…mas e daí? Manda ela passar óio de linhaça que vai ficar tudo bom.. Mas intão vai curar seu Preto? Num sei não, mas o dedinho vai ficar bem lustradinho e num vai???

Óia minha fia que véio sem vergonha! Quase mando ele enfiar o dedo dele noutro lugar, ma me segurrei e vim imbora pra casa.

Lá chigando, e xingando o Preto Véio, encontro o Amigo, véio cumpadre cum outro amigo dele, cum nome de muié, acama, batana, sacana, num me alembru direito… discupi si iscrevo tudinho irrado, mas lá na iscola da Marina, lá na cidade num vô mais, só tem gente jovem que fica tudo rindo da véinha aqui. Sabe cumeé? Sô véia, mas não sô burra véia, não.

Uu cumpradre Amigo disse que veio mi isplicar qui o mundo tava acabando? Intão eu oiei o quintal e tava tudo igual e achei qui ele tinha tomado umas cachaças lá no bar do Antãozinho, inda mais carrigando aquele livro ingual do padre Zé da Igreja.
Ele tava me isplicando que eu ia ser arebatada, in acho qui inssim qui si iscrevi, mas eu fiqui na mirnha. Limbri logo que areba-ta-da eu num sei, mas tava memo é arebentada, também né, dispois de nove fios, num é? Já caiu tudinho! Aaaaa, tôoo cum sardade do meu véio Carlão, eta homem bão! Qui Deus guarde sua arma e ele continue a tomar todas lá encima tanbem, qui ele gostava muito era duma pinguinha, mái nóis era muto feliz…

O tal amigu do cumnpradre me disse qui num era pra priocupar, mais di quê não tinha inferno e nem céu, intão aí qui fiquii priocupada memo, inonde foi o Chiquinho? Inonde eu vou? Inda falou que a vida cumeça dispois de morto, e num é qui acho qui ele é loquinho da silva…loquinho, memo, num acha? Im-morto qui vou vive? Sê tá biruta? Dispois dessa cunversa di louco, vô vortar pra falar cum o Preto véio… im-ele é menos louco…
Agora vô indo, pessu mioras pro ocê.

Ass. Nhá Benta.”

Por Atama Moriya, em 13-05-2009.

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3 respostas para Crônica de Nhá Benta em carta para Uma Peregrina

  1. Adriana disse:

    Olá amores! Hummmm…que lembrança boa, hein meninas?!

    Aposto que a Peregrina deve rir muito desta cronica…rs…rs… é muito boa!!!rs…rs…

    Beijinhossss em seu corações

    Adri

  2. Vanessa disse:

    Que encontro feliz, hein?…e o amigo com nome de muié, então…rsrsrs…muito bom!

    Deus abençôe nossa irmã em sua nova etapa de vida.

  3. Ode disse:

    Olá, Atama!

    Gosto de ler a sua crônica da Nhá Benta, a primeira vez que li foi uma agradável surpresa, e agora não foi diferente. Assim foi para nossa querida amiga Peregrina tb…linda homenagem, numa linguagem autêntica, como é o desejo de cada um de nós: manter na medida do possível a pureza interior, nossos sentimentos sempre elevados em sua simplicidade!
    Ode

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