Estados Unidos: uma crise de ordem estrutural

por José C. Valenzuela Feijóo

I – Uma crise cíclica e do padrão de acumulação

II – O padrão neoliberal, traços básicos. O problema de realização que emerge

III – Breve parêntesis: o modelo de Tugan e o seu contraste com o neoliberal

IV – Como o neoliberalismo aborda o problema da realização

V – Observação final

I – Uma crise cíclica e do padrão de acumulação

A grande crise que se vem desdobrando desde 2008 certamente cobrirá todo o ano de 2008 e, muito provavelmente, também todo o de 2010. A sua profundidade e extensão começam já a recordar, ominosamente, a grande crise de 29-33. Quanto às formas geométricas que por vezes se usam para descrever a curva cíclica, já ninguém pensa num vê maiúsculo (V), uma leve maioria espera uma vogal como a última do alfabeto (U) bem suavizada e uma parte crescente começa a temer um possível ele (L). E além de profunda e longa, trata-se de uma crise que afeta o mundo inteiro; ou seja, é também uma crise globalmente sincronizada.

Mas há mais: a crise atual, inicialmente financeira e a seguir real, tem toda a aparência de ser uma crise terminal, a do padrão neoliberal que tem imperado nas últimas décadas. Qual é o critério que permite sustentar que além de cíclica se trata de uma crise do padrão de acumulação – neoliberal – que tem imperado nos Estados Unidos e em boa parte do resto do mundo desenvolvido e subdesenvolvido?

Neste caso, sustenta-se que um ” ciclo perverso” ou“mal comportado” é o sintoma mais claro de uma crise do padrão de acumulação vigente.    E o que se entende por um “ciclo perverso”?

Habitualmente, em condições normais, quando o ponto de crise inaugura a recessão, abre-se uma etapa em que além dos traços conhecidos (quedo do investimento, do PIB, do emprego, etc), também se começam a corrigir, gradualmente, os problemas que na fase do auge desembocaram no ponto de crise. Por exemplo: se o problema crucial foi uma queda da taxa de lucro provocada por um aumento dos salários superior ao da produtividade, quando a recessão começa a operar o desemprego estende-se cada vez mais.

Com isso, debilitam-se as organizações sindicais e o poder de regateio dos assalariados enfraquece profundamente. No fim, o salário real desce e a relação salário-produtividade vai-se reduzindo cada vez mais. Dessa forma, a taxa de mais-valia eleva-se e, por fim, a taxa de lucro recompõe-se, dando lugar à recuperação e ao consequente novo auge. Em suma, temos que o ciclo capitalista assenta em causa internas: o auge provoca problemas que desembocam na crise e na recessão. Por sua vez, a recessão engendra processos que recompõem a rentabilidade do capital e a consequente atividade investidora. Através disso, termina por engendrar um novo auge. Isto é o que se costuma qualificar como trajetória “normal” ou “bem comportada” do sistema.

Contudo, a cada certo tempo, a recessão deixa de cumprir com eficácia os seus trabalhos de limpeza e sanidade. Ou o que ela pode cumprir já não basta para voltar a reanimar o sistema. Em tais casos, fala-se de um “ciclo perverso”. E o que este fenômeno passa a mostrar é que o sistema está a reclamar uma mudança maior, de ordem estrutural, para voltar a assumir uma conduta dinâmica. Nestes casos, podemos suspeitar que se abre um período de transição, a partir do padrão de acumulação em vigor para outro padrão de acumulação, um que seja capaz de resolver as contradições que precipitam a crise final do padrão em vigor.

O que implica uma mudança no padrão de acumulação? Apontando as dimensões básicas do fenômeno teríamos:

a) mudança nos modos de produção, distribuição e utilização do excedente econômico (no capitalismo, da mais-valia);

b) mudanças nos modos de relacionamento externo da economia. No caso de potências imperiais como os EUA, redefinição dos nexos tanto com as outras grandes potências como com a periferia (ou pólo subdesenvolvido) do sistema;

c) mudanças na esfera política: no interior do bloco de poder, deslocamento da fração dirigente (hegemônica) por outra capaz de encabeçar um novo estilo e mudanças nos mecanismos de dominação. Ou seja, na relação bloco dominante versus classes dominadas.

Tais mudanças, ainda que preservem a matriz básica do sistema, são de ordem maior e costumam implicar turbulências políticas maiores. E convém sublinhar:

i) a mudança não é casual nem responde aos impulsos puramente voluntários. A mudança, na sua maior parte, vem definida pelos problemas estruturais que o padrão posto em perigo não foi capaz de resolver. Por exemplo: se um problema grave do velho padrão era uma péssima distribuição do rendimento (tanto que acaba por ser disfuncional ao próprio capitalismo), o padrão de substituição, para poder funcionar e consolidar-se, deve ser capaz de resolver tal problema;

ii) a classe ou facção de classe capaz de encabeçar e dirigir a mudança tão pouco é fruto do azar. Trata-se de existir uma fração de classe que, por sua posição objetiva na ordem econômica vigente, opere com interesses objetivos que a levem a impulsionar a política exigida pela implantação do novo padrão de acumulação. Algo análogo vale para definir o bloco social que vai promover a mudança.

Não é demais insistir: a mudança socioeconômica também está submetida a leis objetivas. O que de forma alguma implica negar o papel decisivo que deve jogar o fator subjetivo, o das condições ideológicas e políticas que exige a materialização da mudança.

II – O padrão neoliberal, traços básicos. O problema de realização que emerge.

A crise estrutural, sendo de ordem estrutural, exige liquidar o padrão neoliberal.

Este padrão de acumulação caracteriza-se por alguns traços centrais que convém recordar:

a) domínio, nas alturas do poder, do capital financeiro-especulativo;

b) grande aumento da taxa de exploração (ou taxa de mais-valia), processo que, além disso, se apóia no alto grau de estancamento ou queda dos salários reais. No último período, a taxa de mais-valia chegou a uma magnitude de 3,63, cifra que é quase “imprópria” e que, por ser demasiado elevada, pode-se bem qualificar como economicamente “disfuncional”;

c) a partir do aumento na taxa de mais-valia, notável aumento do excedente e, em especial, do potencial de reprodução ampliada (ou relação excedente ao rendimento nacional). De fato, temos que mais de três quartas partes do Rendimento Nacional (78%) passaram a funcionar como excedente (ver Diagrama I);


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d) um processo de investimento que se torna anêmico, sobretudo para o investimento aplicado nos sectores produtivos. Ou seja, muito ao contrário do que coloca a teoria neoclássica dominante, a pior distribuição do rendimento não incentivou nem a poupança nem o investimento;

e) a conjunção do elevado excedente com os baixos níveis de investimento origina um eventual problema de realização que pode ser muito agudo;

f) no caso dos Estados Unidos, o gasto público não resolve o problema: apesar de não o ter descido, o mesmo dogma neoliberal reprime o seu eventual crescimento (salvo em períodos de crise maior como a que começou a processar-se);

g) ao contrário do que costuma suceder com as grandes potências imperiais, nos EUA o saldo externo é negativo. Isto quer dizer que os mercados externos não operam como fator de realização e sim, ao contrário, agravam o problema.

Os últimos dois pontos, o f) e o g), indicam-nos que os por vezes denominados “mercados artificiais” (o público e o externo), não resolvem o problema de realização provocado pelo dado mais estrutural. Como mostra o Diagrama I, ou, se a tais mercados acrescentarmos o gasto em investimento, apenas chegamos a uma quarta parte da mais-valia que gera o sistema. Se não houvessem outros mecanismos, o sistema ruiria estrepitosamente.


III – Breve parêntesis: o modelo de Tugan e o seu contraste com o neoliberal

Antes de continuar, convém introduzir um breve parêntesis. No modelo neoliberal, combina-se uma taxa de exploração muito elevada com um mirrado investimento real e produtivo. Por isso, emerge a espiral da especulação financeira. Poderia verificar-se outra combinação? À margem do modelo neoliberal é possível, sim, outra articulação. Por exemplo: no que podemos denominar “modelo à Tugan-Baranovsky” teríamos também uma elevada taxa de exploração, mas unido a processo de investimento muito forte.

Quais seriam os requisitos a serem exigidos por este padrão de funcionamento? De acordo com o que mostra a experiência histórica (além da lógica econômica) tal estilo torna-se viável se forem cumpridas duas condições básicas.

Primeiro, a existência de um pacote de inovações tecnológicas maiores, capazes de gerar efeitos de arrastamento muito fortes e que se estendam pela maior parte da economia. Digamos, neste âmbito, que ao contrário do que inicialmente se acreditava, a revolução tecnológica no plano da indústria cibernética não chegou a ter os efeitos de arrastamento que inicialmente eram supostos. E uma vez que estes se enfraqueceram, a magnitude do problema de realização já mencionado agravou-se consideravelmente: a economia caiu no esquema do parasitismo acentuado em que se combina uma péssima distribuição do rendimento, baixos ritmos de investimento real e hipertrofia crescente do sector financeiro.

Segundo, uma intervenção estatal ativa. Não se trata de intervenção genérica e sim de uma muito precisa: a favor do desenvolvimento tecnológico e da indústria pesada (de bens de capital, em especial). A intervenção deve concretizar-se em termos de criação de empresas estatais ou mistas e, no mínimo, de um vasto apoio (por meio de subsídios, tarifas protetoras, políticas de compras preferenciais, políticas de qualificação da força de trabalho, etc) às empresas que encabecem o processo. As quais, pela própria natureza das coisas, devem ser grandes corporações de caráter monopolista. Como que a regulação estatal, ao mesmo tempo que as favorece, deve praticamente obrigá-las a uma agressiva política de investimento e crescimento.

Não é preciso assinalar, em tal contexto, que o desenvolvimento deve orientar-se para os mercados internos, Departamento I (meios de produção) da economia. E também para os mercados externos.

Pode-se ver de imediato o contraste entre este estilo e o neoliberal. Neste também está presente uma alta taxa de mais-valia. Mas em vez de investimento e crescimento, o que se consegue é desperdício, especulação financeira e estancamento.

IV – Como o neoliberalismo aborda o problema da realização.

No padrão neoliberal estado-unidense o excedente atinge níveis elevadíssimos. Entretanto, o investimento privado, o saldo externo e os gastos do governo só chegam a realizar uma escassa quarta parte do excedente gerado. O qual, na ausência de outros gastos de realização, poderia provocar um derrube estrepitoso da economia. Algo que durante algum tempo não aconteceu.

Daí a pergunta: quais foram as saídas ou mecanismos que se puseram em ação?

Primeiro, temos um crescimento brutal dos gastos improdutivos. Se somarmos o consumo capitalista aos salários improdutivos, atingimos os 64% de mais-valia total. E recordemos um dado básico: do ponto de vista dos problemas de realização da mais-valia, os gastos improdutivos possuem uma característica “virtuosa”: tal como por exemplo o investimento, operam como fatores de procura, mas ao contrário do investimento não funcionam aumentando a oferta de produtos.

Um segundo fator de ajuste tem a ver com o grau de utilização das capacidades produtivas. Ou seja, com a taxa de operação. Os problemas que emergem pelo lado das vendas refletem-se, pelo menos num primeiro momento, na queda da taxa de operação. Poderia esperar-se que a descida cíclica desta taxa provoque uma descida do investimento (ninguém se lembra de aumentar a capacidade instalada quando há problemas de vendas), com o que, depois de algum tempo, seriam recuperados os níveis de utilização normal. Mas o que se observa, juntamente com a oscilação cíclica previsível, é uma tendência secular para a descida no grau de utilização das capacidades produtivas. Entrar num exame pormenorizado deste fenómeno é algo que não cabe aqui. Por isso, limitamo-nos a indicar que parece estar associado ao peso crescente das estruturas oligopolistas e à maior instabilidade do crescimento.

Terceiro: a menor taxa de operação, ainda que seja como fenómeno latente, provoca um claro impacto negativo nos níveis de investimento. Por essa razão, salvo se emergirem inovações tecnológicas maiores e com grandes efeitos de arrastamento,  o investimento acaba por ir no compasso de uma procura muito pouco dinâmica. E vale a pena sublinhar: o lento crescimento do investimento está a assinalar que as capacidades de produção tendem a acompanhar os mercados de venda. Por isso, a taxa de operação apresenta-se nos como recuperada, com níveis muito baixos. Mas isto não significa que se esteja em tempos de bonanças e a prova disso são justamente os anêmicos ritmos do investimento.

A seguir, temos que os baixos ritmos do investimento traduzem-se inevitavelmente em baixos ritmos de crescimento. Isto, não só em relação a períodos anteriores como, muito especialmente, em relação ao potencial de crescimento da economia. Além disso, vale a pena insistir num aspecto decisivo: se uma elevada taxa de mais-valia for combinada com um baixo nível de investimento real e produtivo, a eclosão do capital financeiro especulativo (com suas bolhas e tudo o mais) torna-se inevitável. É a saída – por enganosa e temporal que seja – que o sistema encontra perante tais circunstâncias. E que só pode ser evitada se a elevada taxa de mais-valia se associar a uma onda de grandes e importantes inovações tecnológicos (com grandes efeitos de arrastamento), unida a uma intervenção estatal forte e desenvolvimentista.

Neste âmbito, convém recordar: no estilo neoliberal, é o capital financeiro-especulativo que tende a impor a sua lógica ao comportamento do conjunto da economia. E como o sector financeiro é muito instável, o seu predomínio arrasta o conjunto da economia a uma trajetória mais oscilante.  Esta crescente instabilidade é provável que esteja na base da tendência descendente da taxa de operação. E com toda certeza, também afecta negativamente a taxa de investimento.

Um quarto fator, muito importante, também ter a ver com o capital financeiro e refere-se aos fortes processos de endividamento em que incorrem empresas e famílias. No caso das empresas, temos um duplo e perigoso movimento: do lado dos ativos, cresce exponencialmente o peso dos ativos financeiros. Além disso, a relação passivos / capital próprio vai para cima do que se considera normal e seguro. Por isso, o nível dos passivos aproxima-se do nível dos ativos. E se houver um crack bursátil, os ativos despenham-se (pelo peso dos valores financeiros que detêm as empresas) e a quebra técnica torna-se iminente. Para o problema da realização, o consumo adicional das famílias, que era financiado pelo crédito, tem desempenhado um papel fundamental. Algo semelhante vale para a construção habitacional. E pode-se sustentar que sem este mecanismo da dívida a economia já haveria ruído. Mas não é menos certo que se trata de um mecanismo com limites claros e que, a partir de certo nível, torna-se extremamente perigoso e insustentável. Estes limites já foram atingidos na crise actual. Por isso, temos que a dívida funcionou como uma ajuda importante mas temporalmente limitada. Mais ainda, na medida em que veio crescendo, veio-se incubando uma explosão inevitável e de conseqüências muito graves. Em suma, encontramo-nos com um remédio temporal que termina por ajudar o paciente a morrer.

Um quinto fator é um “fator mentiroso” e refere-se à especulação bursátil. Ou seja, ao investimento financeiro, o que supõe operações com esses títulos de papel que Marx denominou capital fictício. As operações circulatórias que têm lugar no espaço financeiro costumam dissociar-se da economia real. Sobretudo, quando o dominante é a busca de lucros de capital. Precisemos isto.

O que acontece quando algum agente econômico compra um título financeiro? Primeiro, essa compra não implica a venda de nenhum bem intermédio, de investimento ou de consumo. Ou seja, não colhe como fator de realização de nenhum componente do produto gerado (não são produtos que se compram e vendem). Neste caso, o dinheiro não se gasta para comprar meios de produção (isto é, como investimento real) nem para comprar bens de consumo. Segundo: o que busca o vendedor do título? O óbvio é que ao desprender-se do título obtém dinheiro sonante. Ao mesmo tempo, perde o fluxo de rendimentos futuros que esse título (bônus, ação, etc) lhe permitiria. Por que o dinheiro pode interessar-lhe? Em geral, podemos distinguir dois motivos possíveis: a) necessidades de liquidez imediata por parte do vendedor; ii) a possibilidade de ter lucros de capital.

O primeiro motivo (liquidez) pode corresponder ao manejo normal do capital de trabalho; trata-se de créditos circulantes e de muito curto prazo. Por isso, a venda do título implica uma compra muito recente e assim sucessivamente. Trata-se simplesmente de tirar algum proveito de fundos líquidos temporariamente disponíveis e de um processo estritamente normal. Mas em outras ocasiões a liquidez procura-se porque o processo de reprodução atolou e surgiu a crise. Fenômeno ao qual já aludimos.

O segundo motivo é o que nos interessa e implica a conversão do título financeiro em dinheiro pelos lucros que isto pode trazer. Ou seja, o vendedor compara o preço de compra desse ativo com o seu preço de venda, percebe que a diferença é atraente e trata de vender. Isto implica que o preço dos títulos está a subir a certa velocidade e que os possíveis lucros de capital obteníveis superam os lucros “normas” que proporcione o título (juros, dividendos, etc). E o que vê o vendedor também passa a perceber o comprador: este compra os títulos por pura ânsia especulativa, para vender no futuro e conseguir os lucros de capital. Gera-se assim uma espiral especulativa que pode atingir dimensões insuspeitadas. Neste contexto, o que manda é a especulação. Além disso, a possibilidade desses lucros de capital está associada à existência de uma bolha especulativa e, por esta via, o dinheiro inicialmente investido (D) transforma-se num dinheiro incrementado (D’), em que  = lucros de capital. Aqui, o dinheiro não é procurado como simples meio de compra e sim como equivalente geral, como expressão concreta da riqueza universal.  Neste contexto, o especulador irmana-se ao capitalista industrial – ambos a perseguirem o valor incrementado, ou mais-valor –, ainda que o façam por caminhos muito diferentes. Um, dirigindo o processo de criação do valor e do mais-valor; o outro, simplesmente apropriando-se de um valor já existente.

Neste quadro, tratemos de situar-nos nas motivações dos capitalistas, o industrial e o financeiro. Ambos buscam acrescentar seu capital, obter os maiores lucros possíveis. O industrial consegue-o ao vender as mercadorias que produziu, ao transformá-las em dinheiro. Ao fazê-lo, sente-se satisfeito, com a sensação do dever cumprido. Ou seja, ao realizar o valor das suas mercadorias e obter os lucros do caso, também se “realiza” como pessoa, como capitalista: cumpriu o seu papel. Que de passagem isto signifique também satisfazer as exigências da reprodução macroeconômica do sistema é algo do qual não está consciente e muito provavelmente nem lhe interessa. Quando ao capitalista financeiro, a sua missão na vida consiste em “fazer dinheiro com dinheiro”. Por isso, se tiver êxito nos seus propósitos sente-se tão realizado como o capitalista industrial: também cumpriu o seu papel. Neste sentido, podemos considerar que no plano microeconômico as coisas são essencialmente semelhantes. Em suma, se o investimento – financeiro ou produtivo – resultar rentável, os agentes do caso estarão felizes (sem maus humores nem fígados decompostos, Keynes dixit) e tenderão a continuar investindo, inclusive a escala ampliada.

Pode também verificar-se uma situação diferente: que a nível microeconómico as empresas industriais encontrem dificuldades (vendas insuficientes, baixa rentabilidade, etc), ao passo que as financeiras gozem de grande prosperidade. Marx assinalava que “pode verificar-se uma acumulação, uma superprodução de capital de empréstimo que só mantém conexão com a acumulação produtiva no sentido de que se encontra em relação inversa a ela”.  No mesmo sentido, Sweezy escrevia que “o sector financeiro pode prosperar ao passo que o sector produtivo continua estagnado”.

Neste caso, temos uma situação macroeconómica que apresenta dificuldades, eventualmente crescentes, o que prejudica a dinâmica do sector produtivo. Ao mesmo tempo, um sector financeiro que gera altos lucros atrai capitais expande-se cada vez mais: “o capital emprestável, como qualquer outra mercadoria, vai para onde melhor partido se tira dele”.  Aqui, impera a euforia e quando na Wall Street há festa, os media revivem o pobre Dr. Pangloss e encarregam-se dar a impressão de que tudo anda bem para o melhor dos mundos possíveis. Mas isto não é mais do que uma máscara que engana e que não se pode eternizar, esta situação a longo prazo é insustentável. Mas pode existir e até prolongar-se por um período curto. Este é um primeiro ponto a sublinhar: a euforia financeira provoca um efeito de ocultamento dos problemas enfrentados pelo sector real.

Num contexto como o descrito, o que denominamos satisfação microeconômica (agora válida só para o sector financeiro) combina-se com sérios problemas macroeconômicos, os que surgem no espaço da realização. Mais precisamente, no espaço financeiro os propósitos do lucro satisfazem-se, o sector não atrai apenas os vultuosos recursos líquidos que não encontram aplicação no espaço da produção. Juntamente com isso cria-se uma grande ilusão: a de um capitalismo que gera lucros e não sofre problemas de realização. Por outras palavras, ao efeito de ocultamento segue-se, como se fosse a sua sombra, o efeito da ilusão. A ocultar-se o aspecto problemático do sector real, só se visualiza a euforia do financeiro e passa-se a acreditar que toda a economia vai bem. É como o espelho da madrasta da Cinderela: apresenta como belo o que está gangrenado. Esta ilusão, além disso, possui certa força inercial. Quer dizer, os problemas da economia real podem-se agravar sem que cheguem a afetar, instantaneamente, o sector financeiro.  Enquanto dura a ilusão, a euforia prolonga-se e os problemas reais parecem silenciados e mascarados. Opera aqui um defasagem temporal cuja extensão está muito conectada à duração da bolha especulativa. Por isso, neste período pode-se gerar a impressão de que “as coisas estão bem”. Ou seja, opera a ilusão já mencionada e por isso falamos de um “fator mentiroso”: não resolve os problemas mas parece fazê-lo. E enquanto durar esta aparência, maior será a mistificação que envolve a opinião pública. Ao mesmo tempo, maior será o tamanho da explosão e da crise.

V – Observação final

Em termos históricos, o capitalismo foi o que é porque soube conjugar a obtenção de lucros (mais precisamente, apropriação do excedente), com a produção desse excedente: “o capital é a tendência permanente a criar mais-valia”, dizia Marx.  Quase do seu próprio início, o sistema assinalou aos capitalistas que os seus lucros eram determinados em alto grau pela mais-valia que eram capazes de produzir nos seus estabelecimentos fabris. Além disso, aprenderam que esta mais-valia estava muito associada aos níveis de produtividade que podiam alcançar. Por outras palavras, os agentes do capital tomaram consciência que alcançar os maiores níveis de produtividade era um requisito chave para aceder a lucros altos e crescentes. Em simultâneo, que a maior produtividade do trabalho estava altamente dependente da “densidade de capital” (ativos fixos em relação à população ocupada) e que esta se elevava – tal como a absorção do progresso técnico – na medida que a acumulação de capital era maior.

Não foram assim as coisas nos antigos modos de produção, como o escravocrata e o feudal, nos quais a apropriação desligava-se da produção do excedente. Em geral, nestes sistemas, os titulares do excedente tinham pouco ou nada a ver com a sua produção. Inclusive, em termos dos valores morais que a classe alta manejava nesses tempos, a vinculação ou contacto com o espaço da produção era algo desonroso, impróprio de gente com linhagem. Por isso, deparamo-nos com os baixos ritmos de crescimento da produtividade e do produto típicos de tais sistemas. Algo que contrasta muito com o alto dinamismo histórico do capitalismo.

Contudo, a história parece apresentar novidades. Quando emerge a hegemonia do capital financeiro (que é o caso no modelo neoliberal), a apropriação e a produção dissociam-se em grau muito elevado e o sistema tende estagnar, a abdicar do que foi a sua tremenda força histórica. É o que temos examinado e que nos mostra o crescente parasitismo e a decadência histórica deste modo de produção.

Os problemas que precipitaram a crise atual são de ordem estrutural. Poderiam abrir caminho a uma solução anti-capitalista, mas as atuais condições políticas do mundo (sobretudo dos EUA) não facilitam esse trânsito. Em todo caso, se nos Estados Unidos não se abre a passagem para um re-ordenamento estrutural, a crise não será superada. Em resumo, o grande país do norte deve remover o estilo neoliberal e avançar para um novo tipo de capitalismo, para um novo padrão de acumulação que conjugue uma melhor distribuição do rendimento, o impulso ao sector produtivo e o controle-restrição do capital financeiro. Além disso, cuidar da melhoria do seu saldo externo (algo que provocará sérios diferendos com outras potências e com países periféricos em ascensão). Tudo isto, no âmbito de uma nova e forte intervenção estatal e da correspondente mudança ou deslocação da força dirigente e hegemônica no bloco de poder.

Os tempos que vêm, sem dúvida serão turbulentos: quando os grandes gigantes se retesam e procuram modificar o seu modus vivendi, todo o mundo se vê abalado e arrastado para a mudança. E que saibamos, na história nenhuma mudança estrutural ou de ordem maior foi feita com suavidade e bons modos. O conflito e a violência, desde sempre, foi a “parteiras” do novo na história. E não é coisa de ignorar, no sonho, esta evidência que mostra o decurso dos nossos tempos. Do que se trata, como sempre, é que opere a favor do progresso histórico, tanto no centro como na periferia do sistema.

Ao cabo de várias décadas de conservadorismo, as mudanças estruturais voltam a colocar-se na ordem do dia. E em vez de temê-las, devemos assumi-las com o compromisso e a alegria que todo progresso histórico nos deveria insuflar.

NOTAS
1- Este é um problema muito importante que merece um exame especial que não faremos aqui. Tem a ver com o parasitismo crescente da economia estado-unidense, suas debilidades produtivas, a competição externa e a facilidade com que tem financiado o seu défice. Como já foi bem dito, aqui não corre nenhum FMI obrigado a ajustes extremos.
2- Os números, para os EUA, são mostrados no Diagrama I.
3- Hipótese muito sublinhada por Paul Sweezy.
4- Ver Howard J. Sherman y David X. Kolk, “Business Cycles and Forecasting”, cap. 14. HarperCollins, N. York, 1996.
5- “Só actua como capitalista, como capital personificado, dotado de consciência e de vontade, na medida em que as suas operações não têm mais motivo propulsor senão a apropriação progressiva de riqueza abstracta.” C. Marx, “El Capital”, Tomo I, pág. 109. FCE, México, 1974.
6- Naturalmente, ao vendê-las a um preço superior ao seu preço de custo capitalista.
7- O capitalista, não “se propõe, em geral, a promover o interesse público, nem sabe até que ponto o promove (…); só pensa no seu próprio lucro; mas neste como em muitos outros casos, é conduzido por uma mão invisível a promover um fim que não entrava nas suas intenções”. A. Smith, “La riqueza de las naciones”, pág. 402. FCE, México, 1981.
8- C. Marx, “El Capital”, Tomo III, pág. 464. Edição FCE citada.
9- P. Sweezy y H. Magdoff, “Estancamiento y explosión financiera en Estados Unidos”, pág. 111, Siglo XXI, México, 1987.
10- Walter Bagehot, “Lombard Street”, ob. cit., pág. 49. Edição citada.
11- Como vem ocurrendo en Estados Unidos, inclusive atraem-se capitais líquidos do terceiro mundo.
12- Como diversos autores já sublinharam, ao contrário do que supõe o corpus neoclássico, os agentes económicos não reagem instantaneamente à mudança dos parâmetros em jogo. Na sua conduta há um componente inercial muito importante.
13- C. Marx, “Elementos fundamentales para la crítica de la Economía Política” (Gründrisse); Tomo I, pág. 277. Edic. Siglo XXI, México, 1980

Do Departamento de Economia da Universidade Autónoma do México – Iztapalapa.

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