Consumismo e solidão, Frei Betto por Zacharias Bezerra – jornalista – publicado em 30-05-2005

Já se vão mais de três anos desde 24.05.2005, quando Frei Betto fez a conferência, mas vale a pena reler o resumo publicado pelo jornalista Zacharias Bezerra. Espero que também apreciem.

“Os poucos privilegiados que compareceram, ao Mercado dos Pinhões, em Fortaleza, Ceará, tiveram a oportunidade de ouvir o escritor, teólogo e educador, Frei Betto, sobre valores na conjuntura atual, no contexto da globalização neoliberal que desumaniza as pessoas.

Além de apresentar algumas das suas mais de 30 obras, Frei Betto, falou sobre o seu mais recente lançamento: 13 contos diabólicos e um angélico. Em um dos contos, a alma de Viriato vai para o Inferno; em vez de fogueira e tridentes, ele se depara com uma sala com TV. Aí, ele liga o aparelho e tem acesso a todo um cardápio de programação. “A TV olhava-o ad eternum; ele sequer podia cerrar as pálpebras, ou se levantar da poltrona à qual estava grudado”. Ocorreu um verdadeiro seqüestro da identidade, como acontece com o mundo do consumismo, que provoca um profundo vazio e solidão.

“A cultura neoliberal está descosturando a nossa subjetividade; com o liberalismo o mercado é que rege a vida; você é livre para escolher um produto, desde que tenha renda para exercer seu consumismo”. Para ele, o neoliberalismo é pior, pois com este tudo é mercantilizado: a relação pai e filho, o casamento etc. Frei Betto enfatizou que o neoliberalismo transformou a produção de cultura em produção de mero entretenimento, que exacerba o nosso sentido, mas não infunde valores. “O Big Brother é o típico exemplo de cultura neoliberal, não acrescentou nada a quem o assistiu e não fez falta a quem não viu”.

Frei Betto fez um alerta ao consumismo atávico e compulsivo de nossos dias, com a transformação do supérfluo em necessário que a publicidade impõe a todos nós. “De todos os veículos de comunicação, a televisão é o mais poderoso, porque é um veículo monológico e que produz uma hipnose”.

Para ele, a solução adotada na sociedade européia, mas no Brasil ainda não se adquiriu esse nível de consciência, é boicotar os produtos que patrocinam programas de televisão que incitam a violência e a pornografia.

Como o Homem é o único animal que sabe que nasceu e tem consciência de sua finitude, a televisão utiliza o artifício de transformar a morte em violência e o sexo em pornografia. “Está feita a fórmula que vai prender o homem diante da TV”. O capitalismo, segundo ele, também tem suas artimanhas. Na Inglaterra, foi criada a cerveja Che Guevara. “Transformaram um mito libertário em um produto de consumo”.

Consumismo

Os Shopping Centers, um dos não-lugares das cidades, segundo Marc Augé, são centros comerciais construídos com linhas arquitetônicas pós-modernas. “Neles você só entra com roupa de domingo, as lojas são capelas com seus veneráveis objetos de consumo, oferecidos por sacedortisas aos consumidores”. Quando vai a um Shopping e é perguntado se quer alguma coisa, Frei Betto costuma responder que está apenas fazendo um “passeio socrático”. Segundo ele, Sócrates (470-399 a.C), costumava dizer, na sua época: “Estou apenas observando para ver quanta coisa existe que eu não preciso para ser feliz”.

Hoje, o produto que se porta é que imprime o valor à pessoa, tanto que agora as etiquetas vêm pelo lado externo da roupa. “Se eu chegar à casa de alguém de ônibus, eu vou ter um valor; se chegar de Mercedes ou BMW, o valor será outro”. Vivemos numa sociedade cercada de um apelo consumista muito grande, mas ainda havia um nicho que estava fora desse apelo: a infância. Mas a criança é uma consumidora poderosa pelo seu poder de persuasão. Para transformar a criança em consumista a publicidade promoveu a erotização precoce da criança. “As crianças de hoje são biologicamente infantis e psicologicamente adultas; mas quando chega o choque da adolescência, com o fim da fantasia e a caída na realidade, o traficante vende a ilusão de que é possível continuar ‘viajando’ sem ter que encarar o real”.

Para Frei Betto, associar a obra de arte ao autor é mercantilismo. “A obra de arte tem valor em si, independe de quem a criou”. Segundo ele, nenhum de nós vê com os mesmos olhos a mesma realidade. “Cada ponto de vista, é visto através de um ponto; a arte é polissêmica, seu papel é nos fazer olhar”. É com a arte que se constrói aquilo que a miséria destrói.

Cultura

Cultura é tudo aquilo que é criado pelo ser humano e independe de estudo. Ninguém é mais culto que o outro; há culturas distintas que se complementam. Mas a sociedade elitista e racionalista criou o mito de que culta é a pessoa que foi à escola. “Eu sou formado em três cursos superiores, minha cozinheira tem uma excelente cultura culinária; quem pode viver sem a cultura do outro?” Portanto, existe todo um trabalho cultural em qualquer atividade humana.

“Precisamos prestar atenção na cultura popular, em nichos que ainda não foram mercantilizados; é importante valorizar a cultura popular porque ela traz uma releitura da sociedade em que vivemos”, explicou. Segundo Frei Betto, nosso papel hoje, na sociedade neoliberal, que está mercantilizando tudo na vida, inclusive as relações, é valorizar a cultura popular. “Precisamos criar mecanismos de irrupção de talentos que estão por aí; pois talentos existem, o que não existem são oportunidades deles serem mostrados”, concluiu.

Debate

Frei Betto deixou claro, durante o debate, que não demoniza o instrumento, seja, a TV, mas o seu conteúdo. “Lamento que um veículo de comunicação tão potente, como a televisão, seja tão mal utilizado; você não se enriquece mais se vê ou se não vê TV”. Para ele, domingo é o dia da imbecilização da sociedade, mas isso só poderá melhorar com a mobilização da sociedade.

Outra solução apresentada pelo palestrante é trazer a televisão para dentro da sala de aula. “Quanto mais os jovens debatam sobre a TV mais eles vão aprender; o que eu não discuto eu não consigo me distanciar, portanto é preciso discutir com as crianças, também em casa, sobre o conteúdo da TV, enquanto o poder público não obriga aos que receberam de graça as concessões do Estado a fazerem uma TV de qualidade”.

Falando sobre tabus preconceitos e discriminações, Frei Betto disse que é preciso aceitar ser diferente sem tornar o diferente divergente. O direito que as pessoas têm a sua individualidade não pode interferir na individualidade das outras pessoas. Somente quem está inseguro é que discrimina o outro. “No fundo, todo fundamentalista é um altruísta; o Bin Laden, por exemplo, quer que todos sejam muçulmanos, porque acha que isso é melhor para todos”.

Fonte:
http://www.cnbbsul1.org.br/index.php?link=news/read.php&id=2418

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Uma resposta para Consumismo e solidão, Frei Betto por Zacharias Bezerra – jornalista – publicado em 30-05-2005

  1. Borboleta disse:

    Nossa!!!! Que texto fantástico! Tudo o que ele fala nesse texto é a mais pura realidade!
    Claro que o consumismo leva à solidão….o que você agrega consumindo algo que está absolutamente vazio?…solidão…

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