Era um vasto e luxuriante prado, rodeado de verdes montes. Naquela manhã ele esplendia, rutilante de orvalho, e as aves cantavam para o céu e a terra. Naquele prado tão florido, apenas uma árvore havia, majestosa e só. Alta e formosa, tinha ela naquela manhã um significado especial. Sua sombra era longa e densa, e entre a árvore e a sombra existia um profundo silêncio. Estavam em comunhão — a realidade e a irrealidade, o símbolo e o fato. Era, com efeito, uma árvore esplêndida, com suas folhas de fim de primavera tremulando na brisa, ainda não carcomida pelos bichos; nela havia grande majestade. Não se cobria de vestes majestáticas, mas em si mesma era magnífica, imponente. Ao anoitecer, recolhia-se em si, silenciosa e impassível, até debaixo de um vendaval; e ao nascer o Sol, ela despertava, para estender sobre o prado, sobre os montes, sobre toda a terra, a sua bênção exuberante.
Gritavam naquela manhã os gaios azuis e andavam em grande atividade os esquilos. A beleza da árvore, na sua solitude, empolgava-nos o coração. Não era a beleza da coisa vista, porém a beleza em si. Embora os nossos olhos já tivessem visto tantas coisas lindas, não era com olhos acostumados que víamos aquela árvore, sozinha, imensa, mirífica. Devia ser muito velha, mas nela não pensávamos como coisa velha. Quando nos sentávamos à sua sombra, encostado ao tronco, sentíamos a força da terra, a pujança daquela árvore, sua nobre soledade. Se lhe pudéssemos falar, ela teria muito que nos contar. Mas havia sempre aquele sentimento de distância entre ela e nós, embora a estivéssemos tocando, sentindo-lhe a casca áspera, pela qual subia uma multidão de formigas. Naquela manhã sua sombra se delineava, densa e precisa, parecendo estender-se, para além dos montes, a outros montes. Era em verdade um lugar que convidava à meditação — quando se sabe meditar. Um lugar muito tranqüilo e, se a nossa mente é penetrante, clara, também ali se aquieta, livre das influências ambientes, tornando-se parte daquela brilhante manhã, com o orvalho ainda aljofarando o capim e os juncos. Ali habitaria sempre aquela beleza, naquele prado, com aquela árvore.
Era um homem de meia-idade, bem tratado e elegantemente trajado. Disse ter viajado muito, mas não a negócios. O pai lhe deixara uma pequena fortuna e ele tinha visto uma boa porção do mundo, não apenas o que se encontra espalhado em sua superfície, mas também as raridades conservadas nos mais ricos museus. Disse que gostava de música e a tocava de vez em quando. Parecia também muito lido. No correr da palestra, acrescentou:
“Há tanta violência e tanta raiva e ódio entre os homens. Parecemos ter perdido o amor, não ter nenhuma beleza no coração; talvez nunca os tenhamos tido. O amor se tornou um artigo barato e a beleza artificial mais importante do que a beleza dos montes, das árvores e das flores. A beleza da criança depressa fenece. Tenho estado a refletir sobre o amor e a beleza. Conversemos um pouco a esse respeito, se dispondes de tempo . “
Estávamos sentados num banco, à beira de um curso d’água. Atrás de nós estendiam-se uma via – férrea e morros salpicados de chalés e granjas.
O amor e a beleza não se podem separar. Sem amor não há beleza; ambos se entrelaçam, são inseparáveis. Temos exercido a mente, o intelecto, o talento, em escala tão vasta e destrutiva, que eles se tornaram predominantes, profanando aquilo que se pode chamar amor. A palavra naturalmente não é a realidade, assim. como a sombra da árvore não é a árvore. Não teremos possibilidade de descobrir o que é aquele amor, se não nos apearmos de nossa sagacidade, das alturas de nossa requintada intelectualidade, se não “sentirmos” a água resplandecente o capim novo. Pode-se encontrar esse amor nos museus, na beleza aparatosa dos ritos religiosos, no cinema, ou no rosto de uma mulher? Não achais importante que descubramos por nós mesmos o quanto nos tornamos indiferentes às coisas mais comuns da vida? Não estamos dizendo que nos ponhamos neuroticamente a adorar a natureza, mas, se perdermos o contato com a natureza, isso não é o mesmo que perder o contato com homem, com nós mesmos? Buscamos a beleza e o amor fora de nós, em pessoas, em posses, e estas coisas se nos tornam mais importantes que o próprio amor. Posses supõem prazer e, apegando-nos ao prazer, banimos o amor. A beleza se encontra em nós mesmos, e não necessariamente nas coisas que nos cercam. Quando essas coisas se tornam mais importantes as revestimos de beleza, declina a beleza em nós existente. Assim, à medida que o mundo se torna mais violento e materialista, os museus e nossas posses se tornam cada vez mais necessários para cobrirmos nossa própria nudez e preenchermos o nosso vazio.
“Porque dizeis que, quando procuramos a beleza nas pessoas e coisas que nos cercam, declinam a beleza e o amor em nós existentes?”
Toda dependência cria em nós o desejo de posse, e depois nos tornamos a coisa que possuímos. Se possuo esta casa, eu sou esta casa. Aquele cavaleiro que ali vai é seu próprio orgulho de proprietário, embora a beleza e a dignidade do cavalo sejam mais significativas do que o homem. Assim, a dependência da beleza de uma linha, da formosura de um rosto, reduz necessariamente a importância do observador. Isso não significa que devamos desprezar a beleza de uma linha ou a formosura de um rosto; significa, sim, que quando as coisas exteriores assumem desmedida importância, interiormente ficamos empobrecidos.
“Estais dizendo que, se “reajo ante um rosto formoso, fico interiormente pobre. Entretanto, se não “reajo” ante aquele rosto ou a elegância de um edifício, acho-me num estado de isolamento e insensibilidade.”
É justamente no estado de isolamento que existe a dependência e, por conseguinte, o medo. Se não há reação de espécie alguma, nesse caso existe paralisia, indiferença, ou um estado de desespero, resultante da inanidade da satisfação ( Satisfação de desejo, apetite, etc. a palavra «satisfação» não tem aqui o sentido de alegria, etc. — N. do T.)) contínua. Vemo-nos, pois, eternamente aprisionados nessa armadilha do desespero e da esperança, do medo e do prazer, do amor e do ódio. Quando há pobreza interior, há o impulso a preenchê-la. Tal é o abismo sem fundo dos opostos que nos enchem a vida e criam a batalha nela existente. Todos esses opostos são idênticos, já que são ramos procedentes da mesma raiz. O amor não é produto da dependência, o amor não tem oposto.
“Não existe a fealdade nu mundo? E fealdade não é o oposto de beleza?”
Decerto, existe fealdade no mundo, na forma de ódio, violência, etc. Porque a comparais com a beleza, a não-violência? Comparamo-la porque temos uma escala de valores, no alto da qual colocamos o que chamamos beleza, e no seu pé a fealdade. Não podeis olhar a violência não comparativamente? E, se o fizerdes, que sucederá? Vereis que só tendes de ocupar-vos com fatos, e não com opiniões, com o que “deveria ser”, com medições. Se nos ocupamos com o que é. e atuamos imediatamente, o que “deveria ser” se torna uma ideologia, portanto um produto da fantasia e, por conseguinte, inútil. A beleza não é comparável, o amor tampouco, e quando dizemos: “Amo esta pessoa mais do que aquela” — desaparece o amor.
“Voltando ao que estava dizendo, se somos sensíveis “reagimos” prontamente e sem complicações ante o belo rosto, o belo vaso. Essa reação não pensada deslisa imperceptivelmente para a dependência, o prazer e todas as complicações que estivestes descrevendo. A dependência, por conseguinte, me parece inevitável . “
Existe alguma coisa inevitável, a não ser, talvez, a morte?
“Se a dependência não é inevitável, isso significa então que posso regular minha conduta, que, conseqüentemente, se torna mecânica.”
O ver do processo inevitável é um estado não mecânico. A mente que se recusa a ver o que é, essa é que se torna mecânica.
“Se vejo o inevitável, continuo sem saber onde e como traçar a linha (o limite).”
Não tendes de traçar essa linha, pois o ver traz sua ação própria. Dizendo: “Onde traçar a linha?” — isso representa interferência do pensamento, que teme cair na rede e deseja ser livre. Ver não é esse processo de pensamento; o ver é sempre novo, puro, ativo. E o pensar é sempre velho, nunca puro. O ver e o pensar pertencem a duas ordens inteiramente diferentes, e jamais poderão encontrar-se.
Assim, o amor e a beleza não têm opostos e não podem nascer da pobreza interior.
Portanto, o amor existe no começo e não no fim.
Extraido do livro A Outra Margem do Caminho de J. Krishnamurti – ICK – 1972