A Ceia Mágica – Frei Betto – um conto de Natal

Estou publicando uma série de textos atuais de duas pessoas que admiro, Leonardo Boff e Frei Betto, certamente pensadores bastante esclarecidos e acho que é isto que a Humanidade mais necessita neste momento: pessoas esclarecidas e de mentes abertas e modernas para novos conceitos de vida. Espero que apreciem este compartilhamento. Não faço comentários, os quais deixo para vocês.

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A Ceia Mágica

“A Missa do Galo se encerrou aos primeiros minutos de 25 de dezembro. Padre Afonso se deixara contaminar pela aflição dos fiéis, ansiosos por retornarem às suas casas e desfrutarem a ceia antes de as crianças murcharem de sono.


Abreviou a homilia, pulou orações, desejou a todos Feliz Natal e lhes deu a bênção final. Uma dezena de paroquianos se ombreou na sacristia para lhe manifestar votos de boas festas. Presentes se sobrepunham a um canto: camisas, meias, livros, essas coisas adequadas a um homem de Deus.

Dependurados os paramentos, padre Afonso se viu sozinho.

Miseravelmente só, em plena noite de Natal. O celibato é um dom e ele sabia tê-lo merecido. Ao longo de vinte anos de sacerdócio, acometeram-lhe muitas tentações.

Não era o fascínio das mulheres que o levava a duvidar de sua consagração. Admirava-as, sentia-se gratificado por achá-las belas e atraentes. Sinal de que havia nele um macho, o que no íntimo o envaidecia.

Perturbava-o a consciência do pai que nunca fora. Muitas vezes, sentia saudades dos filhos que não tinha. Atormentava-o se ver sozinho à mesa de refeições. Comer é comunhão, partilha, entremear ao cardápio o diálogo ameno e alegre. O alimento lhe caía insosso e, com freqüência, surpreendia-se sonhando de olhos abertos, a mesa cercada por sua família imaginária.

Naquela noite, a solidão lhe bateu forte. Uma solidão com a ponta de amargura advinda de uma expectativa frustrada. Sentia-a na boca da alma. Nenhum dos paroquianos tivera a generosidade de o convidar à ceia.

Padre Afonso revirou os embrulhos de cores brilhantes e encontrou o que bastava: um panetone e uma garrafa de vinho. Enfiou-os na pasta usada para levar sacramentos aos enfermos e se dirigiu à zona boêmia.

Shirley trazia os olhos inchados, o peito sufocado, o coração miúdo. Desde o fim da tarde chorara copiosamente ao recordar os natais de sua infância no norte de Minas. Lembrou da família que a repudiara, do marido que a abandonara, do filho que dela se envergonhava. Sentiu ódio da vida, da desfortuna a que fora condenada. Confusa, teve vontade e medo de sentir ódio também de Deus.

Pudesse, não trabalharia naquela noite. Todavia, não lhe restava alternativa. O acúmulo de dívidas a obrigava a ir à rua e aguardar o dinheiro ambulante que chegava escondido atrás da fantasiosa excitação de sua fortuita freguesia.

Mirou o homem de pasta na mão, camisa sem gola, sapatos escuros. Talvez viesse do trabalho. Enquadrou-o na tipologia adquirida em tantos anos de calçada: tinha o jeito ingênuo dos que buscam apenas se aliviar e, na hora da cobrança, preferem ser generosos no pagamento a enfrentar uma prostituta irada disposta ao escândalo.

Trocaram olhares e ela se esforçou para estampar um sorriso sedutor. Ele parou e indagou; ela apontou o hotel na esquina. Caminharam lado a lado em silêncio, ela sobrepondo seu profissionalismo aos sentimentos esgarçados, ele apreensivo frente ao receio de ser flagrado ali por algum conhecido. Subiram as escadas opacamente iluminadas, em cujos degraus as baratas se desviavam ariscas.

Ao abrir o primeiro botão da roupa, ela ameaçou dizer qualquer coisa, mas ele se adiantou. Explicou que não estava ali em busca de sexo, e sim de companhia. Haveria, contudo, de pagar-lhe o devido.

Contou-lhe de seu sacerdócio e de sua solidão, e indagou se ela se dispunha a orar com ele e compartir a ceia.

Shirley sentou na cama, enfiou o rosto entre as mãos e desabou em prantos. Agora era um choro de alívio, de gratidão por algo que ela não sabia definir, quase de alegria.

Logo, falou de seus natais na roça, o presépio em tamanho natural que o pai armava no quintal do casebre, o peru engordado durante meses para a ocasião, o bendito puxado por uma vizinha na falta de igreja e padre naquelas lonjuras.

Padre Afonso propôs fazerem uma oração. Ela se ajoelhou e ele a tomou pela mão e fez com que se sentasse de novo. Ele ocupou a única cadeira do quarto.

Abriu o Evangelho de Lucas e leu, pausadamente, o relato do nascimento de Jesus. Em seguida, perguntou se ela gostaria de receber a eucaristia.

Shirley pareceu levar um choque. Como ela, uma prostituta, poderia receber a hóstia sem sequer ter se confessado? O sacerdote leu o texto de Mateus (21,28): “As prostitutas vos precederão no Reino de Deus.” E acrescentou que era ele, e essa sociedade cínica, injusta, desigual, que deveriam se confessar a ela e pedir perdão por a terem obrigado a uma vida tão degradante.

Após a comunhão, padre Afonso tirou dois copos da pasta, encheu-os de vinho e partiu o panetone. Os dois ainda conversavam sobre suas vidas enquanto clareava o dia.”


*Frade Dominicano, escritor.

http://www.oraetlabora.com.br/novo/index2.php?ctg=55&nt=1298

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3 respostas para A Ceia Mágica – Frei Betto – um conto de Natal

  1. Evangelina disse:

    Belo conto!!! nos inspira a ver as pessoas com o coração

  2. Yara Rodrigues Lage disse:

    Muito significativo! Tenho uma grande e feliz família e muitas vezes fico a pensar o que seria passar uma noite de Natal longe daqueles que amo. E então me lembro de todos aqueles que assim se encontram nesta noite que deveria ser “A noite feliz” e peço a Deus por todos e me reconforto ao lembrar que sempre dividimos nossa casa com amigos solitários e estrangeiros deslocados a quem procuramos dar o calor humano de que estão necessitando, assim como o personagem deste lindo conto. Parabens Frei Beto. Amo sua escrita. Yara.

  3. Adriana disse:

    Lindissíma estória… rs…rs…

    você anda inspirado, Atama, pois são lindos textos para reflexão!!!rs…rs…

    Que bom!!!

    Beijinhosssss

    Adri

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