Estamos sempre vendo anunciar na TV pelo governo Lula um esforço muito grande para abrir mercados de exportação de etanol à base de cana à Europa principalmente.
Entretanto, há que se esclarecer um aspecto técnico muito importante que limita bastante esta intenção brasileira.
Primeiro ponto que os governos europeus vão ter que resolver: como vai se utilizar álcool como combustível motor a despeito da produção de gasolina que é abundante no mundo?
Explicamos: quando colocamos petróleo nas refinarias, no chamado craqueamento o primeiro produto que se extrai, como se fosse uma impureza, é a gasolina pura, dela se extrai outros sub-produtos mais leves, inclusive querosene de aviação, então a cada barril colocado na refinaria de petróleo, cerca de 45% é gasolina logo de cara, mais adiante no processo, retira-se conforme produtividade, entre 20% a 30% de óleo diesel, e somente depois é que extrai outros sub-produtos tão importantes hoje que abastecem a indústria petroquímica e produzem os elementos químicos como plástico, fertilizantes e inseticidas. Sendo estas parcelas de sub-produtos consideravelmente menores a cada barril refinado, embora com grau maior de procura e importância tecnológica.
O que o mundo tem de sobra, assim como o Brasil, é gasolina; e tem em falta os sub-produtos. A gasolina extraída tem de ter um fim, por isso é consumida, não pode ser jogada no mar ou em qualquer lugar, o seu destino é virar gases, hoje poluentes que incrementam o aquecimento global cujas conseqüências negativas tendem a aumentar exponencialmente nos próximos anos.
O preço internacional da gasolina é baixo porque sempre está sobrando. O Brasil por exemplo tem muitas sobras que exporta principalmente ao continente sul americano para países que não a produzem suficientemente, e se assim não fosse, e não tivesse mercados suficientes para consumir este sub-produto, certamente que estaria com outro problema de estocagem e consumo.
Daí porque a gasolina é sempre barata no mundo, não exatamente aqui devido a carga tributária e outros custos de re-investimento, sem analisarmos as possíveis ineficiências da Petrobrás.
Na Argentina a gasolina brasileira é vendida a um quarto do preço, para se ter uma idéia.
Mas este não é ponto. O que queremos dizer é que não basta querer utilizar o etanol, pois o mundo dos países ricos tem um problema maior que pensar: o que se fazer então com as sobras de gasolina?
A gasolina é indescartável, e será sempre, mais cedo ou mais tarde queimada e aumentará a poluição ambiental. Hoje esta equação é inevitável. Uma solução tecnológica para este impasse tardará muito para aparecer, até lá a humanidade terá de sofrer com as conseqüências, não resta dúvidas.
O nosso programa de alcool combustível somente resiste ao longo destas décadas simplesmente porque ainda há alternativas para exportação do excedente de gasolina aos países do terceiro mundo.
Novas pesquisas estão sendo sempre realizadas para melhorar esta equação do craqueamento, mas não há perspectivas de curto prazo e nem de médio prazo.
Estas questões tecnológicas mais graves se prendem à nossa dependência dos sub-produtos do petróleo. Como nos liberar e reduzir este consumo sem que para tanto não tenhamos enormes quebras nas safras agrícolas?
Se precisarmos conseguimos sobreviver sem carros, menos aviões que poluem terrivelmente e representam mais de 30% da poluição mundial, podemos nos aquecer à base de glp menos poluentes, mover usinas termoelétricas a gás, produzir outras energias de outras fontes, tudo bem, tudo isto é possível, basta querer, mas, sem dúvida, temos que nos preocupar em comer; sem comida não dá!
Neste momento, sem soluções definitivas, o mundo empurra com a barriga grandes questões com alimentos que se avizinha e toma corpo dia a dia.
Países mais velhos como o Japão, China e toda a Europa já conviveram algumas vezes com o flagelo da fome, e nem pensam em repetir isto neste momento, em nenhuma hipótese, por isso fazem planos de sobrevivência de longo prazo. Parece que já contam com a inevitabilidade futura.
A China, por exemplo, evita todas as maneiras a criação de gado, por maior que seja o seu território, posto que calcularam que faltará água em seus rios que secam a cada ano mais e mais em virtude do degelo, e água de irrigação é fundamental na produção agrícola para 1,5 bilhão de habitantes, e um boi consome por ano algo equivalente a 1 milhão de litros de água por ano, sem contar com enormes quantidades de alimentos que ingere até que pelo menos atinja a idade de corte de 3 a 4 anos de idade.
Aliás, outra questão que terá ser equacionada se refere a produção de ração animal, uma vez que as rações consomem cerca de 50% de toda produção agrícola mundial. Se destinarmos a metade disto para alimento humano eliminamos toda a fome mundial, a despeito de se reduzir carnes e derivados de leite. Isto hoje funcionaria, mas quem quer saber?
Todavia, no futuro breve quando efetivamente acontecer quebras agrícolas devido as mudanças climáticas, o homem será obrigado a re-pensar várias coisas das quais ele vem fugindo porque ainda se encontra em situação muito confortável e alheio as desgraças de outros povos. Até quando?
Por Atama Moriya.
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